Quando, há anos, mantinha um diário no Superencontros, acabei fazendo alguns amigos que permanecem até hoje. Alguns migraram para os blogs e outros, esfumaçaram-se com o tempo. Um deles, em especial, conhecí pessoalmente em uma das minhas viagens a Belo Horizonte e, desde então, nossa amizade cresceu e se consolidou. Ajudei-o em alguns projetos, como um concurso literário de contos, entre outros. Já nos encontramos diversas vezes e hoje, considero-o um dos meus mais queridos amigos.  Homem de mil atividades e mil talentos, tem artigos publicados periódicamente em jornais mineiros. Semana passada enviou-me um que foi publicado no jornal O Tempo, se não me engano, no último dia 20, autorizando-me a republicá-lo no Janelas Abertas. Curtam comigo: 
 

IR ÀS URNAS? TANTO FAZ...

 

Afinal, o que está acontecendo com a cabeça do brasileiro? Há quase um ano estamos assistindo a um festival de denúncias contra o PT, seus integrantes cassados, expulsos, quando não fogem antes, e maracutaias e mais maracutaias pipocando a cada dia envolvendo ministros e gente íntima do presidente da república.

Porém, as pesquisas ainda indicam que ele, o presidente Lula, continua na preferência do povo.

 

Todas as provas estão escancaradas, os delitos estão mais que comprovados, caíram ministros e outros ocupantes de cargos altíssimos, tanto no governo quanto no PT, e ele, o presidente, continua dizendo que não sabia de nada o e povo continua acreditando nisto?

 

Que estranho fenômeno está se passando na cabeça do brasileiro? Todos sabemos, é óbvio e claro demais, que houve um seriíssimo assalto ao Estado brasileiro, nossa cidadania foi vilipendiada, a honra da nação foi esculachada,  e o grande culpado continua inocente, rindo às pândegas, atrás de um  insistente e desavergonhoso “eu não sabia de nada”.

Por que os poucos honestos parlamentares que nos sobraram não articulam de vez este pedido de impeachment? Temem o povo? Então, por que não elucidam o povo? Será tão difícil assim mostrar ao simples cidadão brasileiro que ele foi e continua sendo enganado? Que obstáculo monstruoso existe atualmente na cabeça do brasileiro que o impede de enxergar o óbvio, que lhe impede de tomar a decisão de nomear e punir o grande culpado por toda esta ignomínia que nos acomete, o presidente da república, Sr. Luiz Ignácio Lula da Silva?

 

Talvez, o povo esteja desiludido o bastante para ainda se preocupar com política, uma vez que esta palavra foi por demais distanciada da palavra dignidade. Quem sabe, justificando aquele jeitinho malevolente do nosso povo, o brasileiro não esteja nem aí, pois agora mais que nunca ele sabe que nem será convidado a saborear a imensa pizza em tudo isto vem se acabando. Não é para o seu garfo; ele é requisitado apenas a pagar impostos e a votar.  Ele sabe que, no fundo, na verdade, nem seu voto pode mudar alguma coisa, pois “eles”, os “homens lá de cima”, uma vez eleitos, mudam tudo conforme seus interesses mesquinhos, e nunca dão a mínima para a realidade do povão.

Por isto, danem-se a cidadania, os direitos humanos, a honra, a dignidade. No cardápio do brasileiro só o futebol parece ainda despertar apetite.

 

E iremos às urnas com a maior indiferença que esta nação jamais viu. Pudera; tanto faz...

 

 Osmar Rezende

Jornal  O Tempo



 Zeca07 - 17h23
[   ]




 

EXPLICANDO O TEXTO PUBLICADO ABAIXO:

Além de alguns comentários, recebí e-mails de pessoas que preferiram comentar o texto "pessoalmente"...
 
"A vida através do Espelho", é completamente fictício, nada autobiográfico. Apenas resolví escrever textos sobre homens.
É trabalhoso, pois muito se escreve sobre mulheres, seus sentimentos, segurança, sensibilidade. E nós, homens, acabamos ficando em segundo plano, assumindo o papel de insensíveis, materialistas, egoístas, machões, etc..
Estou tentando mostrar exemplos de homens amorosos, sensíveis, apaixonados, inseguros (abaixo), e com várias outras qualidades/defeitos. Vamos conferir os próximos textos?
 
Segue o texto:
 


 Zeca07 - 23h17
[   ]




 
A VIDA ATRAVÉS DO ESPELHO...
 
Eu não conseguia parar de olhá-lo. Todas as vezes em que o encontrava, essa atração mórbida me atacava e, por mais que lutasse contra, lá estavam meus olhos, observando-o, acompanhando ávidamente seus movimentos. Ele era filho de um velho amigo, o que nos proporcionou várias oportunidades de conversas amigáveis. Gostava de falar sobre sí mesmo, seus estudos, suas viagens, seu trabalho. Não aparentava seus vinte e seis anos e sua postura apresentava a arrogância própria dos adolescentes plenos de auto-estima, que acreditam estar sempre no centro das atenções e do mundo. Isso se acentuava quando estava entre jovens, principalmente entre jovens mulheres sempre oferecendo-lhe seus corações, seus corpos e até mesmo suas almas, com olhares faiscantes e sorrisos sedutores.
E ele pairava sobre todos, inatingível. O que teria esse belo jovem de tão especial que fazia com que eu sucumbisse a essa estranha atração? Seria meu narcisismo, mostrando através dele, como um espelho, o jovem que um dia fui? Eu também era belo e reinava, dentro de meu círculo de amizades, como um fauno cheio de truques e seduções. Eu também não permitia que as pessoas à minha volta percebessem a consciência do meu poder de atração, colocando-me no centro de um círculo invisível que irradiava: "não me toque. Não se aproxime."
Quando ele ria, o som claro e ritmado contagiava a todos e, quem não estivesse em sua companhia, não podia deixar de voltar-se à procura daquele som cristalino que revelava dentes claros e perfeitos emoldurados por um rosto muito bonito. Sua beleza máscula revelava um menino crescido, habitante de um bem proporcionado corpo adulto.
Nas ocasiões em que o encontrava socialmente e acabava sucumbindo àquela irresistível atração, não raro acabava me sentindo sexualmente excitado. Mas, não! Não sentia desejo de ir para a cama com ele! Não era o desejo de possuí-lo, ou o de deixar-me possuir. Era um desejo inexplicável, como se naqueles momentos eu desejasse ser ele. E como ele, exercitar livremente minha sexualidade, com quem eu (ele) quisesse. Era um desejo furioso, mistura de ansiedade, incredulidade e impossibilidade. Esses momentos geralmente me forçavam a uma raivosa masturbação que acabava esfriando meus sentimentos conturbados.
Num final de semana nos encontramos todos, seus pais, ele e eu, num hotel em uma região de montanhas. Seu magnetismo era tão intenso que, pretextando enorme dor de cabeça, recolhí-me ao meu quarto, enquanto todos sairam para um passeio pela cidadezinha. Depois de muito tempo sem conseguir dormir, fui até a janela em busca de um pouco do ar fresco da madrugada. Surpreendí-me ao ver, no prédio em frente ao meu, o jovem deus se despindo com as janelas escancaradas. Fiquei no escuro, protegido pelas cortinas semi-transparentes, admirando cada pedaço daquele corpo que ia se revelando aos poucos, mostrando toda a exuberância da sua juventude.
Com o exibicionismo luxurioso dos gatos que sabem estar sempre sendo admirados, ele caminhou pelo quarto e foi até a janela onde, completamente nú, exibindo ao mundo seu corpo perfeito, encheu os pulmões com o fresco ar da madrugada nas montanhas e, entre profundas inspirações e lentas expirações, acariciava com as mãos seu corpo viril. Vagarosamente afastou-se da janela e estendeu-se sobre a cama onde continuou a acariciar-se até provocar, em sí próprio e em mim, uma enorme e imperiosa excitação que só nos daria sossego com um outro corpo ou, presos nas solidões dos nossos quartos, com nossas próprias mãos. E foi assim que nos masturbamos lentamente, eu no escuro, por trás das cortinas e ele, em sua cama, com as luzes acesas, enroscando-se felinamente nos travesseiros e nos lençóis, com as mãos percorrendo cada centímetro de seu corpo ardente.
Alcançados os orgasmos, corpos ofegantes, percebí as sólidas curvas do seu corpo se aninhando entre os lençóis, distendendo-se e acalmando-se até que, com um sorriso infantil, estendeu um dos seus braços musculosos até o interruptor ao lado da cama e, num toque suave escureceu o quarto, ocultando-se entre a escuridão. Para mim pareceu o final de um filme erótico, com a tela escurecendo totalmente e a história (?) virando passado. 
Eu me sentia doente, envenenado, por aquela atração tão fora de propósito quanto irresistível. Era a porção jovem que ainda habitava meu corpo já entrado na meia idade, onde os sentimentos e as sensações tendem a abrandar-se, dando-nos (e aos outros) a sensação de que passamos a viver em banho-maria. Só que eu me sentia cheio de vida e de vigor masculino, repleto de desejos e de sonhos. E ao confrontar-me tão diretamente com um homem quase-perfeito, no auge de sua exuberância física e mental, que se movia e agia com a naturalidade e displicência próprias de um jovem deus, a sombra da juventude que um dia me possuiu espelhou-se nele, tornando-o uma espécie de ídolo inatingível. Como um espelho que refletisse o passado, onde eu era esse jovem deus. Onde eu possuía o mundo. Onde eu era o alvo das atenções.
Na verdade, as minhas explosões de testosterona eram os reflexos de um passado ainda não tão distante, onde eu era procurado, assediado,  recebendo como prêmios corpos que raramente rejeitava. Através desses reflexos eu fui compreendendo que minha vida foi rica em experiências, em sensações e - por quê não? - em amores. Conhecí muitas pessoas e a diversas amei. Dedicava-lhes grande atenção, carinho e respeito fazendo com que, enquanto durassem nossas relações, elas fossem tão felizes quanto eu o era. E nossas separações eram sempre cuidadosas, bem conversadas e explicadas, com raros rastros de mágoa ou ressentimento.
Sim, eu fui um homem feliz que viveu plenamente seu auge de maturidade. E toda a experiência adquirida ao longo de pouco mais de meio século de vida me davam o embasamento necessário para viver ainda novos relacionamentos bastante satisfatórios. Quem sabe até mesmo encontrar a metade ausente que me completasse os últimos anos de vida...
Não, eu não precisava espelhar-me num rapaz de vinte e seis anos de idade! Não precisava desejar transformar-me nele, viver suas aventuras, sentir suas emoções. Não havia qualquer necessidade de querer reviver através dele as minhas próprias vivências da juventude e da maturidade. 
Eu estava pronto para retomar o curso da minha vida, sonhar meus próprios sonhos, excitar-me com meus próprios desejos. Eu estava pronto para reassumir minha identidade quase perdida e viver plenamente o quinhão de vida que ainda me cabia.
 
Na manhã seguinte, enquanto devorava com apetite meu café da manhã, o jovem deus entrou no salão com seu porte e sua aura sedutora. Respondí ao seu cumprimento com um aceno displicente e concentrei toda a minha atenção numa suculenta fatia de bolo de chocolate.


 Zeca07 - 15h27
[   ]




 
 
  
 
Celso, o jardim e as íris, para Ana. 
parte 1
 
 
Chegou, afinal, o fim do dia. E a sombra se alonga quando as montanhas embranquecem e a relva perde a cor. O desejo, continuava verdejante. Um vento suave, misturado ao perfume rico de alecrim, de pêssego e limão, passava entre as árvores enfileiradas no alto do muro de pedras que separava o jardim do pomar. No solo fértil de uma bela tarde de outono, regado pela umidade da fonte e alimentado pelos raios quentes de um sol generoso, a semente da poesia deveria germinar, fazendo brotar as folhas macias e vulneráveis de um amor nascente. E o desejo continuava verdejante. Preso nos amontoados de pedras duras que, aquí e alí, faziam contraponto ao colorido do jardim.
 
Celso fez desaparecer o som do cascalho sendo pisado, parando ao lado de um arbusto podado com esmero. Sentiu o doce aroma das rosas silvestres à beira do pequeno riacho, misturado com as flores do jardim e o cheiro úmido da sebe de buxo. Pousou os olhos sobre o canteiro de íris e alegrou-se com as brincadeiras do amarelo sobre o azul profundo das flores. Lembrou-se imediatamente do broche de Ana, com três íris: botões de esmeralda e azurita incrustrados em ouro com cabos de prata. Três botões cada um, com três pétalas, simbolizando a Santíssima Trindade, mas também os três significados da íris: bravura, sabedoria e fé.
 
Ele praticava paisagismo e jardinagem. Munido de paciência e tempo, se esmerava em transformar seu jardim em obra de arte. Via-o como um poema em evolução. Celso via claramente seu pedaço de terra cultivado como uma das formas mais elevadas de arte, combinando elementos de todo o resto. Como a pintura, uma mistura de cores e composição. Volume e espaço, como a escultura. E a música, com todos os sons de insetos, pássaros, fonte, brisa. Idéias musicais expressadas literalmente com tema e harmonia. A dança, representada pelo farfalhar das folhas à passagem da brisa, dos ventos ou mesmo da chuva. E os vôos incessantes de pássaros e insetos transformavam a aparente tranquilidade do jardim numa doce sinfonia repleta de sons e movimentos. E de luzes. Num jardim, o tempo passa tão lentamento que não se pode vê-lo enquanto acontece. Só os efeitos cumulativos, depois. E cada um desses mínimos acontecimentos, são versos que vão compondo, pouco a pouco, um poema vivo.
 
POR FAVOR, NÃO COMENTE AINDA. LEIA A PARTE 2 ANTES.
 


 Zeca07 - 16h19
[   ]




Celso, o jardim e as íris, para Ana. 
parte 2
 
 
 
Seguiu, com seu desejo verdejante, para um pequeno estúdio. Lá, iria exercitar outra de suas paixões. Criar pequenos mimos, a partir de técnicas antigas, para sua amada. Logo começou a misturar uma quantidade mínima de ultramarino com azurita amassada. Usaria cola como base, pois isso realçaria muito mais o azul. As íris iriam brilhar, num vaso de maiólica. Cobre com resina funcionaria para o verde. Seriam três caules curvados, cruzados, um botão vergado na direção do olhar. Qual deles? Bravura, sabedoria, fé?
 
Dias depois, as flores de Celso adquiriam forma num pequeno prato de cobre. Ele estava escurecendo a pintura com um vermelho transparente e brilhante. O uso de outra cor poderia dar um efeito de sujeira. Apoiou o peso na mão esquerda e ergueu o pincel, pronto para encostar no painel, então parou. Absorto no pincel, na pintura, no que iria acontecer. Dentro de cada mundo existe outro, pensou, todos à espera de serem descobertos. O pincel desceu e Celso deu uma pincelada longa e fluída, como só a tinta a óleo consegue. 
 
Misturando a uma poeira amarelada, estanho e chumbo, conseguiria um amarelo vívido, que daria mais vida ao ultramarino. Começou a acrescentar óleo de linhaça à cor, o líquido grosso e viscoso escorrendo do vidro elegante como mel frio. O óleo cor de palha caiu como as primeiras gotas grandes de chuva de uma tempestade que se aproxima. Cada uma amassando um pouco do pó amarelo antes de rolar para o lado e se dissolver lentamente nas outras. Celso usava uma faca com movimentos rápidos para a frente e para trás, como se passasse manteiga numa torrada, para misturar o pó ao óleo e formar uma pasta encaroçada e oleosa.
 
Pegou um pilão de vidro pesado em forma de cogumelo com a ponta chata. Inclinado em cima da  mesa, rodou lentamente o pilão para moer o pigmento cada vez mais fino até parecer que estava mexendo um prato de girassóis líquidos. Enquanto trabalhava acrescentou o pó de vidro que tinha pulverizado num pano com os cacos de um recipiente de murano. Usou a faca para juntar a pasta espessa, raspando-a cuidadosamente para um vidro que depois pôs junto com os outros.
 
Ele se espreguiçou, girou os ombros e tentou relaxar os músculos doloridos. Seu desejo, ainda verdejante, jazia num canto da alma, esquecido. Tinha esquecido como pintar era físicamente exaustivo. Quanta concentração e controle tinha de investir para que o pincel se transformasse numa extensão da sua mão e dos seus olhos, de quanto esforço exclusivamente físico precisava para ficar perfeitamente imóvel, hora após hora. O desejo, verdejante, latejava pedindo espaço para expandir-se. Saiu do estúdio e ficou observando a enorme lua alaranjada que seguia seu caminho para algum lugar mais distante que as montanhas adormecidas no horizonte. Como uma coisa tão imensa podia passar tão silenciosa?, imaginou, caminhando pelo jardim, a fonte lançando arcos de prata fraturada na escuridão. Sentia-se bem acordado, apesar de a primeira luz do amanhecer estar prestes a chegar para lavar a cor da noite. Nessa hora, com todos dormindo e as estrelas mais brilhantes parecendo mais próximas, até conseguia ouvir a música das esferas.
 
Só restavam alguns detalhes a serem cuidados na pintura das íris. A luz, um pequeno toque de branco nas pétalas azuis. Voltou ao estúdio e trabalhou rápidamente, com poucas pinceladas habilidosas e, por fim, segurando no ar o pincel, compreendeu que não tinha mais nada para fazer. A pintura estava completa. Como o silêncio que precede o término de uma música, pleno e rico com suas próprias notas, era um momento de repouso que existia em sí mesmo, mas que englobava o mundo inteiro, um mundo que duraria para sempre.
 
Ana entenderia também, aquele era o mundo que compartilhavam.  O pincel, pousado ao lado do pequeno quadro que mais parecia uma jóia na riqueza do cobre e das tintas lustrosas, indicava que estava pronto. Era hora de ir, já estava tarde.
 
No final do dia, entregaria o pequeno quadro para Ana e lhe pediria que dividisse a vida com a dele.
 
 
inspirado em trechos de Quattrocento, de James McKean
 


 Zeca07 - 16h16
[   ]




Estou interrompendo uma série ainda em preparação, sobre homens e a arte, para deixar um comentário que julgo de grande importância para todos. Bem, para mim, é! Ninguém é obrigado a conviver com as diferenças que existem entre os seres humanos, mas é imoral desrespeitá-las. Enquanto existirem pré-conceitos, preconceitos, discriminações, exclusões, humilhações, não conseguiremos mudar o mundo. Só o respeito ao outro fará de cada um de nós mais um guerreiro na luta contra as desigualdades e toda a gama de trágicas ações que afetam negativamente a sociedade. Não só no nosso país. No mundo todo. 

 

Não comente ainda; leia o texto abaixo, por favor.



 Zeca07 - 20h49
[   ]




 

Contente por receber uma nova visitante, tratei logo de retribuir a visita, sendo recepcionado por um belo, triste e trágico poema.  Aproveitei o "gancho" e resolví escrever um texto a respeito do conteúdo do que lí. Como existem algumas coisas com as quais nossos pensamentos não combinam, deixarei de citá-la e ao seu blog. Mas não deixo de indicar que o texto foi inspirado em um poema lido no blog que visitei.  Serão apenas os meus pontos de vista alí colocados, nada pessoal, pois respeito sua maneira de ver e perceber o mundo. E apenas divergimos em alguns pequenos pontos. Peço a ela que não fique sentida comigo. E que procure entender-me. Eu continuo achando que foi muito bom ela ter chegado lá ao acaso, pois me deu oportunidade de também chegar até ela.

O nosso mundo, infelizmente, é assim: assassinatos, roubos, drogas, sexo pago ou obrigado, governo corrupto e tantas outras mazelas. Política, educação, saúde, respeito, vergonha, são todos artigos em falta, há já tanto tempo! Tanto que nem sabemos se um dia poderemos ter tudo isso de volta...

Os pais e as mães, alguns, à procura de emprego, com um salário vil que mal dá para colocar um pão sobre a mesa. Outros, se virando como podem, na tentativa de conseguir algum, qualquer um, que lhes permita levar, às vezes, algo para os familiares. Outros ainda, seguindo os exemplos dos poderosos e tentando se dar bem, levando algum não tão honestamente, e nem sempre para o pão, muitas vezes para outros vícios. Existem ainda aqueles que, sem resquícios de esperança, se voltaram para o mais fácil e estão lá, no início do texto, roubando, matando, criminalizando. Sem contar aqueles que cafetinam suas próprias esposas na venda do corpo, ou então, a sí próprios, em busca do vil metal.

Os filhos? Muitos abandonados, sem alimento, sem saúde, sem instrução ou educação, logo seguirão os caminhos dos pais e dos demais que lhes são próximos. O caminho para o mundo do crime é, muitas vezes, a única opção - talvez uma das mais fáceis. Ou não. As escolas? Em geral abandonadas à própria sorte ou ao apego heróico de professores mal, remunerados e desrespeitados, que se batem atrás de alguma solução, muitas vezes sem encontrá-la. Exercícios de cidadania? Não se ouve mais falar nisso, a não ser em discurso de políticos às vésperas de eleições.

E quando se fala nessas pessoas, pais e mães que não sabem mais cumprir seus papéis, bandidos que matam, roubam, enganam, seduzem, mentem, não estamos classificando-os conforme sua orientação sexual, cor da pele, religião ou local de nascimentos. Fazem parte todos de um mesmo saco de criminosos, onde se engalfinham brancos, negros, vermelhos e amarelos; árabes, judeus, chineses e japoneses. E também alguns gays e lésbicas. Por que não? Não são apenas os heterossexuais, ou os homens, ou as mulheres que detêm o direito de ser criminosos. Todos, sem qualquer excessão o podem ser.  

Gays e lésbicas? Grande parte deles são apenas seres humanos que estudam, trabalham, pagam impostos, consomem, têm dinheiro, ou não têm, sofrem, se divertem, têm saúde ou ficam doentes, amam e são amados, têm pai, mãe, parentes, são solidários com outros seres humanos, votam, elegem, têm religião, convivem em sociedade (quando não são rechaçados) e procuram  viver com o máximo de dignidade que conseguem num mundo de excluídos, de humilhações, de preconceitos e pré-conceitos.  Existem outros, diferentes, que se igualam aos pais e mães mencionados acima. Mas isso mostra que todos são iguais perante a raça humana. Existem os bons e os maus, os "do bem" e os "do mal", como em todas as culturas, raças, cores e diversidade sexual. Existem ainda os homens e as mulheres, os negros, os índios, os deficientes físicos (nem sei mais se ainda é correto chamar os portadores de algum tipo de deficiência assim...), os árabes, os judeus, os japoneses, os chineses, os americanos, os europeus, os lunáticos... etc., etc., etc.. Todos são iguais perante a raça humana. Muda a cor da pele, o formato dos olhos, alguns traços físicos. Uns têm pênis, outros vaginas e seios. Mudam as religiões, os costumes, as histórias, as experiências. Mas todos são seres humanos que estudam, trabalham, pagam impostos, consomem, têm dinheiro, ou não têm, sofrem, se divertem, têm saúde ou ficam doentes, amam e são amados, têm pai, mãe, parentes, são solidários com outros seres humanos, votam, elegem, têm religião, convivem em sociedade (quando não são rechaçados) e procuram viver com o máximo de dignidade que conseguem num mundo de excluídos, de humilhações, de preconceitos e pré-conceitos. E tem também os que se comportam diferente, como os pais e mães mencionados lá em cima, lembra?

Ficou repetitivo? Desculpe, essa foi a intenção. Ou melhor, foi para chamar a atenção.

É um lembrete para que não caiamos na armadilha fácil de discriminar, de julgar, de desrespeitar uma minoria, qualquer que seja ela. O respeito entre os seres humanos, a compreensão e aceitação das diferenças, podem ser os primeiros passos para que possamos resgatar tudo aquilo que temos perdido ao longo dos anos. E passarmos essas idéias de igualdade, de fraternidade, principalmente de respeito pelos seres humanos, mesmo que sejam diferentes de nós. Que não pensem ou não ajam como nós. Ou como nós desejaríamos que pensassem e agissem.

Eu sou como sou. Você é como é. Ele(a) é como é. Nós somos como somos.

Cada um de nós carrega qualidades e defeitos. Cada um de nós vê e vive a vida do seu próprio jeito. E nenhum de nós gosta que nos digam como deveríamos ver e viver nossas vidas. Se nos respeitarmos como simples humanos e mortais que somos, todos teremos muito a ganhar. O respeito, a honestidade e a solidariedade são armas poderosas contra os desonestos, monopolizadores, adúlteros, mentirosos, preguiçosos, sem opinião, sem valores morais, corruptos, ladrões, assassinos, espertos e toda essa canalha que desrespeita a todos, absolutamente todos, sem qualquer preconceito ou discriminação.

Se soubermos colocar o amor incondicional ao próximo em nossos corações, estaremos combatendo também os pornógrafos da net, esse mundo podre, fétido, promíscuo, imoral, devasso...

E se Deus é o Pai Amantíssimo, ele criou toda essa diversidade humana. E lhe concedeu o poder do livre arbítrio, onde cada qual escolhe o caminho que deseja seguir. O que virá depois, eu não sei... acredito que apenas Ele o saiba!

E eu, quem sou para julgar o meu próximo, apenas por ser e pensar diferente de mim?



 Zeca07 - 20h46
[   ]




Bernardo e a "Caçada" do Quattrocento
 
 
A maior parte das vezes em que olhamos para um quadro, nem nos damos conta do que estamos vendo; talvez apenas o que procuramos, ou o que o pintor queria que víssemos.
 
Os nossos olhos continuam adormecidos até que uma pergunta do espírito os desperte. É quando não estamos olhando que alguma coisa que não se encaixa pula do quadro e nos agarra.
 
Bernardo estava recostado numa velha poltrona de couro, feliz de poder se soltar em um dos seus quadros favoritos. Uma cena de floresta aninhada numa moldura de ouro esmaecido. Era um genuíno quadro antigo, do "Círculo de Paolo Uccello", com cores apagadas e perspectiva dramática. Uma caçada diurna, no coração da floresta. Cavaleiros e cães em confusão no meio dos arbustos, sob o espesso pálio verde arqueado no alto, como o teto de uma catedral, sustentado pelas colunas estriadas dos troncos das três árvores. A presa - talvez um javalí - estava fora de vista, mas Bernardo costumava passar horas procurando figuras escondidas no emaranhado de arbustos, encontrando sempre um novo detalhe que escapara ao exame anterior. Como o clarão colorido quase fora de vista, escondido atrás dos troncos das árvores numa suave colina ao fundo. Havia outros detalhes difíceis de distinguir na escuridão e nos desenhos do sol atravessando as folhas.
 
Não havia vento na floresta. As árvores estavam imóveis e os latidos dos cães e o relincho dos cavalos também pairavam no ar. Os cães, frenéticos com a excitação, rosnavam e perseguiam a presa, seguidos de perto pelos homens que esporeavam seus cavalos. Gritos animados e o toque agudo e repetido de trompetes eram respondidos pelos sons da floresta.
 
Bernardo assustou-se com um barulho externo e percebeu que estava em pé, em frente ao quadro, como se estivesse participando daquela cena. Chegou mais perto, até apoiar uma mão de cada lado da pintura, deixando seu rosto a poucos centímetros da tela. As árvores cresceram e saíram do seu campo de visão. Os arbustos dissolveram-se em manchas verdes e marrom-escuras, mas em nenhum lugar conseguiu encontrar vestígios de dourado, ou de amarelo, ou mesmo de azul. Eram apenas camadas de tinta, pinceladas com esmero, sob camadas e camadas de verniz. Quase se podia adivinhar a larga faixa da veladura, brilhante, com cores transparentes, um arco-íris congelado na tela. Ficou pensando nas partículas de pigmento, amassadas à mão, com uma moleta num prato de vidro. Sob as cores o castanho-amarelado esmaecido da cobertura monocromática e então, a última coisa, o traço fino e negro do desenho original, feito com carvão, sobre a superfície recém-esticada da tela.
 
Aquele quadro parecia ser do período de transição entre o uso da têmpera de gema de ovo para o uso da tinta a óleo. Talvez a única e maior transição na história da pintura desde que o homem pintou as cavernas com carvão. A têmpera é como as tintas diluídas em cola, usadas nos cartazes; não tem mistério. É fácil de fazer e de trabalhar, mas limitada em sua expressividade. A superfície permanece plana.
 
Quando Bernardelli (re)descobriu a perspectiva, os artistas da Renascença puderam romper o plano da imagem. Mas não totalmente. A tinta a óleo é completamente diferente, por possuir um índice muito elevado de refração, deixando os pigmentos transparentes. Com o óleo pode-se usar vernizes, montar camadas, fazer a luz refratar através da pintura para criar um mundo verdadeiramente tridimensional.
 
A técnica antiga era desenhar o contorno e preencher, como fazia Botticelli. Leonardo, porém, usava o "sfumato", luz e sombra, para criar suas figuras. Elas não são postas sobre o fundo como recortes. Elas emergem, são uma parte orgânica.
 
Aos poucos, seus ouvidos foram sendo despertados pelo som de um piano. As notas tinham um timbre onírico, o eco fraco e seco do granizo num campo gelado. A música foi invadindo-o e, esquecendo a contemplação do quadro, percebeu que era tocada com graça e delicadeza, mal encostados os dedos nas teclas. Bach? Bernardo pensou, sabendo que devia estar enganado, que qualquer coisa barroca soava como Bach para ele. E só então percebeu por que o som parecia tão distante e etéreo. O instrumento não era um piano e sim algum ancestral mais antigo - um cravo, talvez. A pequena caixa oblonga de madeira escura, com dois teclados, um em cima do outro, e as teclas brancas que não eram de marfim, mas sim de buxo amarelo-mel. Dentro da tampa, aberta e apoiada num bastão trabalhado (talvez na forma de uma sílfide longilínea), deveria haver uma cena pintada de elfos dançando em uma senda silvestre.
 
Bernardo, esquecido da "Caçada" seguiu o som que inundava todos os ambientes.
 
 
Inspirado num trecho do livro Quattrocento, de James McKean.


 Zeca07 - 17h16
[   ]




Muitos dos costumes das festividades pascais se originam na época pré-mosaica, com os festivais de primavera realizados pelos pastores pagãos. Outros derivam de uma das mais importantes festas judaicas, onde se comemora a passagem da escravidão para a liberdade, dos israelitas que saíram do Egito durante o reinado de Ramsés II. É o Pessach. Este é um ritual de passagem, assim como foi a passagem de Cristo, da morte para a vida. Para os cristãos, a celebração da ressurreição de Jesus Cristo que, após sua morte, teve seu corpo colocado num sepulcro selado onde permaneceu por trê dias. Com a reunificação do corpo e espírito, ele ressurgiu dos mortos. Na língua portuguesa, a palavra Páscoa vem do hebraico Pessach. Assim como Pascua em espanhol, Pâques em francês e Pasqua em italiano. 

wpe1.jpg (25964 bytes) 

A imagem do coelho, associada à Páscoa, deve-se à sua notável capacidade de reprodução. Já no Antigo Egito, ele simbolizava o nascimento e a nova vida. E alguns povos antigos o consideravam o símbolo da Lua. Como a data é determinada pela Lua, é possível que isso o tenha tornado um símbolo pascal. Páscoa é ressurreição e renascimento; nada melhor que esses animaizinhos como símbolo de fertilidade. A tradição do coelho foi trazida às américas pelos alemães, em meados do Século XVIII, quando os pais escondiam ovos pintados a mão e diziam às crianças que um coelhinho brincalhão as visitara e deixara ovos coloridos que elas deveriam encontrar.

aeggs.gif (448 bytes)veggs.gif (2041 bytes)ceggs.gif (456 bytes)Os ovos, pintados originalmente com cores brilhantes, representavam a luz solar e eram ofertados como presentes. Egípcios e persas tingiam ovos com cores primaverís e os davam a seus amigos. Os persas acreditavam que a Terra saíra de um ovo gigante. Os primitivos cristãos da Mesopotâmica foram os primeiros a usar ovos coloridos na Páscoa. E em alguns países europeus, ovos coloridos representam a alegria da ressurreição. Uma lenda conta que uma mulher muito pobre fez um ninho de palha no quintal, onde escondeu ovos coloridos por ela para alegrar a Páscoa dos filhos. No momento em que eles, batendo palmas, felizes, encontraram o ninho, um enorme coelho passou correndo e espalhou-se a história de que o coelho havia trazido os ovos. Alguém é capaz de duvidar da veracidade dessa história?

bunsher2.gif (7352 bytes) Para os gregos o chocolate era considerado o "alimento dos deuses". Os Maias e os Astecas também consideravam-no sagrado, tanto quanto o ouro. O alimento adquiriu tal valor que os Astecas chegaram a usá-lo como moeda. Por volta do Século XVI, chegou à Europa, tornando-se ràpidamente popular como bebida. Como se acreditasse nos poderes afrodisíacos, de poder e de vigor, era reservado apenas aos governantes e aos soldados. Ele chegou a ser usado como remédio e também considerado um pecado.

Já no início do Século XX, para difundir o consumo do chocolate no mundo inteiro, são criados os bombons e os ovos de Páscoa. Além dos seus muitos significados, esse gostoso e nutritivo presente, é um rico complemento alimentar e repositor de energia.

O Domingo da Páscoa é o primeiro depois da Lua cheia que ocorre na data do equinócio (no dia ou depois de 21 de março). A igreja católica, para obter consistência na data da Páscoa, decidiu relacionar a data a uma Lua imaginária - ou "Lua eclesiástica". A quarta-feira de cinzas ocorre 46 dias antes da Páscoa, iniciando o período da quaresma. Com essa definição, a Páscoa varia de ano para ano, ocorrendo, no mínimo em 22 de março e no máximo em 24 de abril. Por isso é conhecida como uma festa "móvel". 

 



 Zeca07 - 17h53
[   ]




 Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora a fazer um novo final.

(Chico Xavier)
 
 
 
 
parte final.
Um dia na vida de André (parte 3)
 
Após ter-se divertido a valer naquele pequeno lago de águas translúcidas, André deitou-se sobre uma pedra permitindo que os raios do sol lambessem as gotas d'água que traçavam caminhos sobre sua pele e se infiltravam em seus cabelos pretos. A paz era tanta e o coração estava tão pleno que acabou adormecendo e sonhando.
Voava transportado pelos dourados raios do sol, fazendo o caminho inverso ao que o levara até alí. Viu o andarilho caminhando pelo asfalto, com os pés protegidos pelas sandálias de dedo e um sorriso de saciedade no rosto. Passou pelo homem vestido com uma camisa verde claro, jaqueta de couro e tênis cinzento. Estava sorridente, conversando com o proprietário de uma empresa de transportes. Após um caloroso aperto de mãos, o homem saiu de cabeça erguida, sorriso no rosto, assobiando, afinadamente, um chorinho (Carinhoso). André teve a certeza de que o desconhecido havia conseguido um emprego. Quando sobrevoava a casa, viu o filho, emburrado, chutar o carrinho de plástico amarelo e dirigir-se à mãe que, na porta, o chamava para o jantar. Ela estava com um cigarro nos lábios, um copo que deveria conter a indefectível cachaça em uma das mãos, os olhos apertados e a boca de poucos amigos. À aproximação do garoto, ela perguntou:
    - Você viu o palerma do seu pai?
    - Ví. Ele me encheu o saco e saiu pra rua.
    - Ele deveria sumir de vez. Não aguento mais sua cara de santo. Nem aquele sorriso pregado naquela cara de idiota.
    - Então me dá comida qu'eu tô morto de fome.
    - ... (entraram sem imaginar que lágrimas salgadas toldavam o sorriso de André).
Os derradeiros raios de sol transportaram André de volta à pedra onde dormia, à beira do riacho que continuava cantando alegremente e seguia seu caminho embrenhando-se na escuridão verde da mata cerrada.
André acordou, espreguiçou-se e pensou: "se eu sumisse completamente, minha mulher acabaria conseguindo uma boa pensão para o seu sustento e o do Júnior."  Enquanto o sol despedia-se das copas das árvores, cedendo lugar à primeira estrela que precedia a chegada prateada da lua, um anjo diáfano materializou-se ao seu lado, abraçou-o afetuosamente e, assim enlaçados, ambos foram levitando em direção ao infinito.
Naquela noite, dois mendigos habituados a dormir à beira do riacho, dividiram entre sí a calça, a cueca, a camiseta e a carteira vazia que encontraram sobre a pedra. Os documentos, resolveram enterrar bem fundo para não se envolverem em problemas. E dormiram felizes com seus novos bens.
 
fonte: 1000 imagens - foto: Carlos Duarte Leal Ferreira


 Zeca07 - 17h20
[   ]




 

continuação...
Um dia na vida de André (parte 2)
 
Após algum tempo caminhando sem destino, André entrou numa padaria para comer um sanduíche e beber um suco de laranja. Notou na soleira, um velhinho sentado, com os pés muito inchados. Ao perceber seu olhar, o velho pediu-lhe um pão com manteiga e um café para aplacar a fome. Sob os protestos do dono do estabalecimento, ele levou o velho até uma mesa onde se sentaram. Pediu dois sanduíches e dois copos de café com leite e comeram juntos. Enquanto comiam, perguntou ao ancião por quê seus pés estavam tão inchados.
    - Eu não tenho nenhum calçado e as pedras dos caminhos e o calor dos asfaltos queimam meus pés, inchando-os.
    - Posso dar-lhe as minhas sandálias que, pelo menos, protegerão seus pés das pedras e do asfalto. E o resto do dinheiro que trago em meu bolso, para alimentá-lo durante alguns dias.
    - Mas, senhor...
    - Shhh... não diga nada, por favor. Apenas aceite.
Pagou a despesa na padaria e deu o troco e o restante do dinheiro ao andarilho, que ficou olhando-o afastar-se, com um sorriso agradecido e uma das mãos abençoando seus caminhos.
André continuou andando até deixar o asfalto e a cidade para trás. Seguiu por uma estrada de terra e entrou em outra, secundária, que se infiltrava numa mata repleta de verdes e ia se tornando cada vez mais fechada sobre o caminho. Sentindo-se cansado e com sede, julgou ouvir o murmúrio de um riacho e, seguindo o som, embrenhou-se na mata. Conforme aumentava a melodia da água, a mata ia se esgarçando até revelar um lindo quadro que encantou seu olhar. Do meio das inúmeros nuanças de verde que envolviam a mata, serpenteava um riacho abrindo caminho por entre plantas floridas e pedras, até encontrar a clareira onde lançava-se, em pequena cachoeira, num pequeno lago que refletia o azul líquido do céu, salpícado de gotas douradas de luz. Passando preguiçosamente pelo lago, o mesmo riacho seguia sua trilha em  graciosos volteios, para novo encontro com a mata que voltava a fechar-se lentamente em variados matizes de verde e sorvendo a água transparente.
O lugar era tão aprazível que, após beber um pouco da água com as mãos em concha, sentou-se sobre uma pedra e, calças arregaçadas, refrescou os pés sentindo um prazer quase infantil por participar daquela rara cena. Pouco a pouco foi se despindo. Primeiro a camiseta branca, depois a calça e, a seguir, a cueca. Entrou na água, brincou e divertiu-se sòzinho, como nem seu filho saberia fazer. Sua felicidade era imensa.
 
segue...


 Zeca07 - 18h29
[   ]




 
Um dia na vida de André (parte 1)
 
André tomou um longo e refrescante banho. Escolheu um desodorante sem perfume e vestiu uma camisa verde claro sobre uma camiseta branca. Cuecas brancas sob calças jeans e meias brancas sem cano sob tênis cinzento. Colocou carteira, dinheiro e documentos nos bolsos internos de uma jaqueta de couro, jogou-a sobre os ombros e desceu a escada assobiando, desafinadamente, um chorinho (Carinhoso). Foi até a cozinha onde Irma limpava vagens para o almoço. Deu-lhe um beijo na nuca e ela virou-se com certa violência, faca em punho, olhando-o como se visse um estranho.
    - Não enche o saco! Não vê que estou ocupada?
    - Mas, eu...
    - Fica quieto! Prefiro ficar aquí sòzinha.
    - ...
Acostumado ao humor terrível da mulher, André virou as costas, tirou uma maçã vermelha da fruteira e saiu para o quintal esfregando-a na calça. Deu a volta em torno da casa e viu o Júnior brincando ao lado do portão da rua. Parou perto do menino e ficou observando-o, absorto com seu carrinho de plástico amarelo rodando pelo chão. Abaixou-se e, afetuosamente, passou a mão pelos cabelos encaracolados do filho.
    - Pô, pai! Num enche o saco! Tô brincando.
    - Filho, você qu...
    - Saco! Num vê qui eu quero ficá sòzinho?
    - ...
Levantou-se, abriu o portão que pintara de azul royal na semana anterior e saiu andando pela rua. Terminou de comer sua maçã, jogou os restos numa lixeira e virou a esquina. Viu um homem sentado no meio-fio, com as mãos cobrindo o rosto. O corpo, sacudido por longos suspiros revelava desesperança ou mesmo desespero. As roupas humildes e as sandálias de dedo mostravam sua extrema pobreza. A camiseta era um trapo, de tão rasgada, deixando expostas partes do seu corpo magro e acinzentado. Abaixou-se e, delicadamente, perguntou se poderia fazer algo pelo outro.
    - Creio que não, meu senhor. Roubaram tudo o que eu tinha em meu barraco e eu não tenho roupas pra trocar, nem comida pra me alimentar. E não me dão nenhum emprego, pois tenho a aparência de um mendigo.
    - Talvez eu possa fazer algo por você.
    - ... (um olhar de esperança fixou-se no rosto do estranho).
André levantou-se, separou algum dinheiro e guardou, nos bolsos da calça, a carteira, os documentos e o dinheiro que restara.
    - Aquí tem algum dinheiro. Não é muito mas com ele você poderá se alimentar e ainda ficar com um pouco. E fique com a minha camisa, o meu tênis, meias e a jaqueta. Poderão recompor sua aparência e ajudá-lo a arranjar trabalho. Eu fico com suas sandálias.
    - Mas, senhor...
    - Shhh... Não diga nada, por favor. Apenas aceite.
Levantou-se, calçou as sandálias e continuou andando, sem perceber o sorriso de gratidão que iluminava o rosto do estranho.
 
segue...


 Zeca07 - 17h17
[   ]





  "
 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Livros, Cinema e vídeo, Pintura
Outro -
Histórico:
  01/04/2007 a 30/04/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006
  01/10/2006 a 31/10/2006
  01/09/2006 a 30/09/2006
  01/08/2006 a 31/08/2006
  01/07/2006 a 31/07/2006
  01/06/2006 a 30/06/2006
  01/05/2006 a 31/05/2006
  01/04/2006 a 30/04/2006
  01/03/2006 a 31/03/2006
  01/02/2006 a 28/02/2006
  01/01/2006 a 31/01/2006
  01/12/2005 a 31/12/2005
  01/11/2005 a 30/11/2005
  01/10/2005 a 31/10/2005
  01/09/2005 a 30/09/2005
  01/08/2005 a 31/08/2005
  01/05/2005 a 31/05/2005
  01/03/2005 a 31/03/2005
  01/02/2005 a 28/02/2005
  01/01/2005 a 31/01/2005
  01/12/2004 a 31/12/2004
  01/11/2004 a 30/11/2004
  01/10/2004 a 31/10/2004
  01/09/2004 a 30/09/2004
  01/08/2004 a 31/08/2004
  01/07/2004 a 31/07/2004
  01/06/2004 a 30/06/2004
  01/05/2004 a 31/05/2004


Blogs que leio:
  ÁGUIA SERENA
  ANA
  ANDRESA
  ALF
  BEAGAY
  BRUNA
  CECI
  CLARICE
  CLAUDINHA
  CIGANINHO
  CHERRY
  CRYSTAL
  DE (AGILIZA)
  DO
  DORA
  DRIKA
  ELAYNE
  ELZA
  GIULIA
  GRACE
  HEBE
  INDIANIRA
  JANE I
  JANE II
  JEANETE RUARO
  JÉSSICA
  JÉSSICA II
  JOTA EFFE ESSE
  JU = MEDO DE AVIÃO
  JU = NAVEGANDO
  JULIO CESAR
  KARINE
  KATHY
  KEILA, A LOBA
  KERY
  LANA
  LIANNARA
  LINO RESENDE
  LOBABH
  LOBA/PALIMPNÓIA
  LUCIA MI
  LUZES DA CIDADE
  MAGUI
  MANOEL DONINI
  MÁRCIA(CLARINHA)
  MÁRCIA DO VALLE
  MARCO
  MARILIA
  MARY
  MASCARADOS
  MENSAGENS ESPIRITUAIS
  MESTRA DOS SONHOS
  MEU CARO VINHO
  MC MIGUEL
  MILY
  NANI
  NEY ALEXANDRE
  NORMANDO
  O APANHADOR DE SONHOS
  PLUTO FILHO DA PLUTA
  RAFAEL
  RAINHA DE COPAS
  ROSA
  ROSEMARI (I)
  ROSEMARI (II)
  RUBO JÜNGER
  SANDRA / AMERS
  SANKA
  SARAMAR (I)
  SARAMAR (II)
  SARAMAR (III)
  SERGIO
  SETH
  SIDPIM
  SIMPATIAEESCULACHO
  SONIA
  TANER
  TOM
  VOANDO PELO CÉU DA BOCA


VOTAÇÃO
 Dê uma nota para meu blog!


Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com




O que é isto?