A HISTÓRIA DE AXEL IV


Axel ainda era o mesmo rapazinho bonito, risonho e inteligente. Todos gostavam dele com facilidade mas havia uma diferença tão sutil, que acho que ninguém percebeu. Ele continuava frequentando a igreja onde fora criado, mas já não atuava como antigamente. Apenas pertencia ao coral, por estar namorando a filha da diretora. Mas já não dava aulas de catecismo, nem fazia visitas a hospitais. E também afastou-se do convívio com os padres. Para as pessoas, se é que alguém percebeu algo, eram mudanças da idade. Apenas isso.

Axel tornou-se o namorado de uma única garota. E com ela ficou por três anos. Estava no último ano do curso ginasial quando uma briguinha de namorados os separou. E por motivos bobos de orgulho adolescente, ele não quis mais voltar com ela. E começou a namorar a Arlete. Uma linda loira de olhos verdes que o idolatrava. No baile de formatura do ginásio, sua namorada era a loira Arlete e ele nem se incomodou com o olhar tristonha da Márcia, que nem dançou naquela noite... mas no fundo, seu coração também não estava totalmente feliz...

Após o ginásio, ele resolveu fazer o clássico, pois pretendia fazer o curso de letras. E ao mesmo tempo, faria o normal, pois tinha muita vontade de ser professor de crianças, das quais sempre gostou muito. Estudava no normal pela manhã e no clássico à noite. Aí, virou um galinhão. Embora continuasse com a Arlete, era muito assediado pelas normalistas, pois era um dos poucos homens naquele curso. Como não existia o “ficar” naquela época, podemos dizer que ele ficava com muitas, um dia com uma, outro com outra e todas queriam ficar com ele. À noite, era um pouco mais controlado, pois a irmã da Arlete estudava numa sala ao lado da sua. Mas dava suas escapadinhas e saia com as meninas fora do colégio. Nessa época já estava praticamente abandonando a igreja.

Com dezessete anos, conheceu Sílvia, alguns anos mais velha que ele. Ela começou a assediá-lo e, uma tarde, enquanto a avó de Axel dormia, Silvia comeu-o na cozinha mesmo. Ele nem sabia direito o que estava fazendo... só sabia que estava perdendo a virgindade com uma “mulher direita”, ao contrário dos seus amigos, que a perdiam na zona, com alguma prostituta. Sílvia tinha 28 anos e era noiva. Mas todo mundo comentava que ela era apaixonada por ele. Só sei que durante algum tempo eles treparam muito. Quase todos os dias!

Num desses dias, um amigo do clássico, convidou-o para sair com ele, sua namorada e uma prima dela. A prima era bem jeitosinha, uma gracinha de menina mesmo! Logo Axel estava encantado por ela. E como já não era mais muito inocente mesmo, já partiu para um amasso no banco de trás do carro do amigo. Essa garota tinha vinte e um anos.

Começaram a sair de vez em quando, até que um dia, a garota contou que estava grávida! Naquela época não era comum um garoto levar uma garota a um motel. Aliás, mal haviam motéis. Existiam as zonas e sei lá o que mais. Só sei mesmo é que Axel, com seu fogo ariano, e com sua lua em escorpião, ajudados pelo ascendente sagitário, era tão atirado que transava com a garota atrás de muros, atrás da igreja, nos fundos de alguma casa em construção... e ninguém nem sabia da existência, ou melhor, saber até sabia, mas não se preocupava com o uso da tal da camisinha... vai daí que, a garota estava grávida!

Oh! Deus! O que fazer agora! Como pode um garoto com dezessete anos, assumir um filho? Será que deveria contar em casa? Pedir conselhos a alguém? Meu Deus, por favor, ao menos um sinal! Sem a mínima idéia do que fazer... e se fizesse o que estava pensando, casar com ela, como iriam viver?


 Zeca07 - 19h32
[   ]






A HISTÓRIA DE AXEL III


Voltou à cozinha e ligou a cafeteira. Passou requeijão em duas torradas, tirou do pote alguns biscoitos de gergelim e serviu-se de um copo de leite. Enquanto comia, ia relendo o que havia escrito e dando alguns retoques. Depois, novas lembranças chegavam e impunham sua presença, fazendo com que ele quase se esquecesse da cafeteira ligada.

Nosso amiguinho fez o jardim da infância, depois passou para o curso ginasial. Passava de ano com facilidade, sempre rodeado de amiguinhos e querido pelos professores. Todos gostavam de conversar com ele e de ouvir as histórias que ele contava. Principalmente quando falava nas fadas, nos gnomos, nos duendes. No ginásio, já entrando na puberdade, permitiu-se um pouquinho de rebeldia. Fez de conta que não acreditava em elementais e, muito cedo, já era um grande namorador. Ainda no quarto ano do primário, teve a primeira namorada, a Sandrinha, linda morena que ele acompanhava até a porta de casa todos os dias após as aulas. Depois, foi a Maria Lúcia, menina estranha, que não conversava com ninguém, mas era toda sorrisos com Axel. E ele, caidinho por ela. No ginásio, até perdeu a conta de tantas que namorou. Pouco a pouco foi pegando na mão, arriscando um beijinho no rosto, com o próprio em fogo...

Nesse período, entre escola e namoradinhas, ele também se dedicava a outra paixão: a Igreja! Era muito católico, não perdia missa; era coroinha; ensinava catecismo; fazia visitas a outras crianças hospitalizadas. Um dia resolveu que queria ser padre! Birrento e teimoso, ninguém conseguiu tirar essa idéia daquela cabeça dura! Tanto fez, tanto lutou que, um dia, conseguiu a aprovação dos pais para internar-se no seminário. Nessa época sua família morava em São Paulo. No seminário, virou um santinho! Cumpria todas as obrigações com alegria e prazer, estudava muito e se dedicava a tudo quanto podia. Quando distribuiram tarefas entre os alunos, escolheu a de jardineiro. E passou a cuidar de uma parte do imenso jardim. Sentia o maior orgulho do “seu” jardim, pois era o mais bem cuidado, com as mais belas flores. Gnomos? Duendes? Fadas? Isso era bobagem de criança! Não existiam!

Um dia, um traumático desapontamento, levou nosso amigo a decidir voltar para casa! Ele ficou gripado e foi passar a noite na enfermaria. Durante a madrugada, acordou com uns barulhos estranhos e levantou-se, para ver o que estava acontecendo no quarto ao lado. Encontrou um dos padres com a batina levantada, comendo o garoto que tomava conta da enfermaria! Ele ficou parado, os olhos arregalados, a garganta seca, sem poder se mexer. E em sua cabecinha, que acreditava que os padres eram os santos na Terra, entrou a dúvida, com a visão daquele ato, para ele, indigno. Quando conseguiu se mexer novamente, voltou para a enfermaria, deitou-se e chorou o resto da noite, enquanto o barulho no outro quarto continuava, pois o padre e o menino nem deram pela sua presença. No dia seguinte pediu para falar com o diretor e anunciou sua decisão de sair. Mas não teve coragem de contar o verdadeiro motivo daquela decisão; preferiu dizer que não aguentava de saudades de sua mãe e avó. O padre tentou segurá-lo durante um mês. Mas ele, irredutível em sua decisão, não voltou atrás e, para alegria de sua mãe, logo ele estava novamente em casa. Meio cabisbaixo, um pouco ensimesmado, mas o mesmo menino brincalhão e risonho de sempre.

Voltou ao ginásio, que havia interrompido e, em pouco tempo, já estava namorando a Márcia. Uma linda menina de longos cabelos negros, filha da diretora do coral da igreja que ele continuava frequentando.


 Zeca07 - 18h11
[   ]







A HISTÓRIA DE AXEL – II


Enquanto suas memórias surgiam, uma suave brisa limpava as nuvens que abriam passagem a alguns raios de sol, fazendo cintilar as águas do lago e aspirando a névoa que inundava a paisagem. A xícara de café já não fumegava ao seu lado. As últimas notas de Chopin davam lugar a um silêncio quebrado apenas pelos barulhos da rua. E sem quebrar o encanto daquela manhã, os cds foram substituídos por Rachmaninov.

Ele não se lembra quando começou a ver os duendes. Eram pequenos seres, pouco menores que sua cabeça, engraçados e um pouco feinhos. Viviam no jardim, entre as plantas, de quem cuidavam e de todos os outros habitantes daquele mundinho. Tinha também os gnomos, um pouco mais gordinhos. E as fadas? Elas eram lindas! Completamente diferentes dos feinhos duendes e fofinhos gnomos. Eles se vestiam de maneira parecida e eram bastante atarefados cuidando das plantas, das pedras, dos insetos e pequenos bichinhos que povoavam o jardim. Mas as fadas eram brincalhonas, alegres, sorridentes e luminosas. Às vezes, misturavam-se às borboletas e davam verdadeiros espetáculos de balé ao som do passarinho amarelo. Axel as adorava. Foram ficando amigos, os duendes, os gnomos, as fadas e ele. Nunca conversaram, talvez por falarem línguas diferentes, ou por não necessitarem de palavras para se entenderem. Os duendes se vestiam com roupas coloridas, bastante criativas, chapeus pontudos e sapatos feitos de casca de árvores. Tanto eles quanto elas se vestiam de maneiras semelhantes. A diferença é que elas usavam cabelos mais longos e frequentemente enfeitados com florezinhas. Os gnomos usavam roupas igualmente coloridas, mas mais uniformes entre sí. Sempre calças marrons ou cinzentas para eles e saias longas nas mesmas cores, com alguns detalhes arroxeados ou esverdeados para elas. As camisas eram mais coloridas e os chapéus eram todo em forma de cone. As fadas usavam roupas leves e quase transparentes, parecendo feitas de pétalas de flores. E estavam sempre voando, raramente sentadas sobre uma folha ou uma flor. E à sua volta existia uma espécie de luz, ou elas eram mesmo luminosas. Ele sabia que todos se alimentavam das próprias plantas, pegando apenas aquilo que iriam ingerir. Com eles foi provando os diversos gostos e intuindo as propriedades das plantas. Quando sentia um certo mal estar, bastava mastigar umas folhas de hortelã, que logo se sentia melhor. Nos momentos em que algo parecia não estar dando certo, mascava erva cidreira e sua paciência se renovava permitindo-lhe reiniciar ou consertar qualquer coisa. O azedinho dos trevos lhe davam uma sensação de frescor, de alegria. E ele foi aprendendo com aqueles elementais o amor e o respeito pela natureza. À medida que ia crescendo, suas atenções começaram a dispersar-se para outras coisas. Quando conheceu o papel e os lápis, um novo mundo abriu-se diante de seus olhos e seu coração se enchia de curiosidade e alegria pelas novas possibilidades se abrindo à sua volta. Logo estava desenhando seus amiguinhos entre as flores do jardim. Os adultos, riam indulgentemente dizendo que eram “desenhos de criança”, mas os duendes, os gnomos e as fadas olhavam com alegria e se reconheciam nos traços feitos por Axel. Às vezes até ficavam alguns momentos parados para que ele pudesse captar alguns detalhes de seus rostos ou de suas roupas.

Quando chovia, Axel sentia uma mistura de sentimentos. Sabia que a chuva era importante para a terra, as plantas, e os animais que viviam na natureza e até mesmo para os seus amigos, permitindo-lhes, talvez, descansar de seu trabalho. Mas sentia saudades deles e ficava horas à janela tentando vê-los por entre as plantas. Nunca conseguiu, daí acreditar que ficavam mesmo descansando naqueles dias.

Quando começou a frequentar a escola, custou para acostumar-se à nova rotina. Sentia falta dos amiguinhos e não gostava das brincadeiras das outras crianças. Observando ia criando histórias a respeito do que via e do que ouvia. E aos poucos foi se habituando às novas atividades e se enturmando com outras crianças.

Embora de temperamento introspectivo, Axel era uma criança alegre. E bela. Era quieto, atento, inteligente e muito atencioso. Gostava das pessoas e não foi difícil encontrar novos amiguinhos e encantar as professoras, que disputavam seus desenhos.

Axel era um menino feliz.



 Zeca07 - 22h22
[   ]





OLÁ, PESSOAS!!!


Estou por aquí, sempre tentando manter em dia, pelo menos a leitura dos blogues amigos. Como todos sabem, muitas mudanças estão acontecendo em minha vida, desde início de agosto. E com isso, tenho andado extremamente ocupado, pelo menos muito mais do que antes.

Mas vou tocando minha vida, sempre olhando pra frente e acreditando na realização vitoriosa de todos os planos.

Esta pausa na história de Axel é para agradecer a todos os amigos visitantes, aos seus comentários e ao carinho que tenho recebido. Sinto que formei aqui, uma verdadeira comunidade de amigos que, mesmo virtuais, um dia deixarão de sê-lo. E aí celebraremos um dos mais valiosos bens que podemos desejar: a amizade!

Com alguns tenho trocado notícias via e-mail. Com outros, nos comentários, cá e lá... mas tenho todos no coração, cada qual com seu lugar sempre bem cuidado, limpo e arejado.

Até uma carta manuscrita eu recebí! Imaginem a surpresa! Uma carta vinda de Foz do Iguaçú, escrita a mão, recheada de carinho, enviada pela querida amiga De, do Agiliza... aliás, quem não conhece, dá uma espiadinha, vale a pena! O Agiliza tá linkado aí ao lado.

Também recebí um telefonema! Delicioso! De uma das minhas mais antigas e queridas amigas virtuais, que nesta altura, já nem mesmo virtual pode ser considerada, tantas coisas já dividimos nestes anos de amizade. Só não nos conhecemos pessoalmente, ainda. Mas um já acompanhou muita coisa da vida do outro, com direito a confidências e tudo o mais. A Luna também tá linkada ao lado! Dê uma espiadinha... vai... ela é uma linda mulher e muito especial também.

Tenho recebido várias perguntas a respeito da loja. A reinauguração já aconteceu, pela metade. Após a parada para reforma total, reabrí sem nenhuma solenidade especial, simplesmente fazendo muito barulho pela cidade. É que aquí ainda funciona (e muito!) o sistema de carros de som. Então, além de anunciar por toda a cidade que a Trilha Guaianá estava sob nova direção e com excelentes promoções de reinauguração, anunciei também no rádio e, assim, não há quem não saiba da novidade nesta pacata cidadezinha sulmineira. E graças a Deus, todos têm acorrido para ver/saber das novidades e aproveitar as promoções. Com isso, estou conseguindo baixar o estoque e, em meados de outubro, quando começarem a chegar as novidades compradas nas feiras às quais fui em agosto, poderei finalmente inaugurar a Alémdoarcoíris! E despedir-me da Trilha Guaianá...

Enquanto isso, vou fazendo o marketing do boca-a-boca, contando inúmeras vezes a história do término da sociedade, sem brigas nem ressentimentos e por aí afora. Cês acreditam que tem gente que pergunta direto, por que a gente brigou? Por que resolvemos nos separar? Coisas do interior... mas no fundo eu adoro essa pseudo inocência que envolve as pessoas que vivem fora dos grandes centros. É que normalmente elas são mais diretas, menos dissimuladas e mais preocupadas com a vida alheia. Nos grandes centros nem dá tempo de se preocupar com a própria vida, quanto mais com a dos outros, né?

Nos próximos dias voltarei, prometo. Um grande abraço a todos e vamos nos falando...


 Zeca07 - 17h37
[   ]






A HISTÓRIA DE AXEL - I


Olhou para o relógio que marcava 5:45. Decidiu levantar-se, pois sabia que de nada adiantaria ficar alí tentando encontrar um sono que não existia. Puxou as cortinas que lhe mostraram uma chuva fria e fina lavando a paisagem. Sentiu um tremor de frio e vestiu seu roupão, felpudo e aconchegante. Nos pés, velhas meias de lã lhe davam um calorzinho agradável e o levaram até o escritório. Parou o olhar sobre um vaso de violetas roxas que sobressaía entre outros objetos espalhados na mesinha ao lado da janela. Sobre ela, uma estante contendo muitos CDs, que sempre lhe faziam companhia, em todos os momentos da vida. Passeou o olhar sobre eles até decidir que gostaria de ouvir algo bem suave, como os noturnos de Chopin, por exemplo. Colocou o CD e voltou o olhar para o vaso de violetas roxas, enquanto a doce melodia preenchia o vazio daquele escritório. Precisava retirar algumas folhas. Algumas das mais velhas, cuja ausência possibilitaria maior quantidade de nutrientes para as outras. E avivaria a cor das novas flores que certamente viriam substituir as que já alegravam seus olhos. Eram pequenas obras de arte, com pétalas dobradas e finíssimas bordas claras, quase brancas arrematando o roxo profundo das flores. Juntas, formavam um buquê arredondado e perfeito sobre uma guirlanda de folhas verde escuras e aveludadas. Tão suaves ao toque. Levou o pequeno vaso, cuidadosamente ao banheiro e colocou um pouco de água no pratinho, evitando molhar as folhas e flores. Colocou-o cuidadosamente sobre a mesinha, arrumou, um sobre o outro, alguns livros de arte barroca brasileira que estavam espalhados e pegou sua caixa contendo material para aquarela. Deu uma examinada em algumas folhas recém pintadas e recolocou-as no lugar. Verificou o estado dos pincéis que estavam num copo de cerâmica feito por sua amiga Célia, anotando mentalmente a necessidade de comprar dois ou três novos, de determinados tamanhos. Os tubos de tinta ainda dariam para um bom tempo. Recolocou tudo em seus lugares e sentou-se à escrivaninha.

Verificou alguns papéis espalhados sobre a mesa, abriu alguns envelopes recebidos no dia anterior, jogou propagandas fora e deixou o restante para mais tarde. Ligou o computador e, enquanto a tela ia clareando, foi até a cozinha pois estava precisando de um café quente e cheiroso.

Voltou para o escritório com uma caneca fumegante nas mãos e sentou-se diante do computador pensando sobre o que iria escrever. Não queria voltar aos contos, nem às poesias. Gostaria de começar algo novo, algo que ainda não houvesse feito.
Entre pequenos e reconfortantes goles de café uma idéia foi tomando forma e logo ele estava fazendo algumas anotações para começar um novo trabalho que iria, certamente, ser longo como uma gestação, difícil como a formação de um novo ser e dolorido como um parto.

Enquanto a paisagem lá fora era lavada pela fria e fina chuva, sons escritos há tanto tempo por Chopin aqueciam e coloriam o ambiente e um lindo vaso de violetas roxas lhe fazia companhia naquele escritório tão vazio até minutos atrás. A seu lado, os últimos fiapos de fumaça deixavam uma caneca já quase vazia de café, cujo aroma forte já se espalhara, misturando-se ao som e tornando-se parte do ambiente.

Ele estava pronto para enfrentar um novo desafio. Iria começar a escrever sobre a sua vida.

Era uma pessoa muito tranquila, talvez um tanto sòzinha, mas não por falta de amigos. Ele os tinha, poucos, mas muito bons. Era uma questão de temperamento mesmo. Desde pequeno sempre fora diferente dos outros meninos. Gostava de observar o mundo, as pessoas, a natureza. Seus olhinhos vivos se encantavam com as cores, seus ouvidos aguçados captavam todos os sons. Era capaz de observar pacientemente o desenvolvimento de uma nova plantinha do jardim, desde o aparecimento do primeiro broto até o desabrochar da primeira flor. E gostava de cuidar delas também. Os sons do jardim o encantavam, ele reconhecia os insetos e se sentia uma espécie de amigo deles, não os incomodando e vivendo em harmonia com aquele mundinho tão distante dos seus outros amiguinhos. As borboletas eram suas amiguinhas prediletas. Com suas asas delicadas e coloridas elas alegravam seu coração infantil. Suas primeiras músicas foram o canto dos passarinhos. Havia um, com penugem amarela, que pousava todos os dias em uma jabuticabeira, e alí ficava um tempão cantando. Seu canto era tão bonito que parecia que todos os outros bichinhos ficavam calados, prestando atenção. E ele, claro, sentia-se inebriado e agradecido, pois acreditava que o passarinho vinha até alí só pra cantar pra ele.



 Zeca07 - 19h28
[   ]







LIMPANDO AS GAVETAS – AREJANDO A VIDA

Enorme dificuldade: limpar minhas gavetas, remexer meus guardados, jogar fora coisas sem qualquer utilidade prática. Geralmente decido num dia, para fazer em outro, ganhando tempo, adiando o problema. Tomada a coragem e aberta a primeira gaveta, meus olhos percorrem o conteúdo, minhas mãos, nervosas e inquietas separam aleatoriamente, sem saber como, pois tudo faz parte de um tesouro. São papéis, pedacinhos de fita, fotos, cartas e bilhetes, folhas e pétalas secas, cartões de visita, bilhetes de teatro ou de cinema, anotações em diferentes tipos de papel, telefones não se sabe de quem, e tantas outras preciosidades, cada uma com sua história, sua peculiaridade. Feitos os montinhos, nova seleção, com lembranças desviando a atenção do objetivo principal. Com muito custo e coragem, jogo fora alguns montinhos. Às vezes, retiro algo do lixo, reavalio e decido: jogo fora de vez ou guardo ainda um pouco?

Não tenho essa dificuldade com roupas ou coisas de casa. Vivo dando roupas praticamente novas, bastando estar há algum tempo sem usar. Meu guarda-roupa é básico, com algumas peças indispensáveis. Contentes ficam a minha empregada, o asilo e algumas pessoas que costumam ser ‘presenteadas’ nessas ocasiões, incluindo roupa de cama e de banho. O hospital municipal tem uma lojinha de coisas usadas, cuja renda reverte para a compra de remédios, material para curativos, para o pronto socorro. Essa lojinha já recebeu tanta coisa que eu quase fiquei sem panelas, pratos ou copos em casa. Batedeira, torradeira, sanduicheira, mix e secador de cabelos já foram há tempos. Dei uma limpeza também nos móveis, mantendo o básico necessário, enviando os supérfluos para a caridade também.

Mas na hora de limpar as gavetas, arejar um pouco minha vida, limpar a memória de coisas que já perderam a importância, a coisa pega. Eu fico inseguro, sem coragem de livrar-me das memórias, dos guardados.

Os fundamentos do Feng Shui mostram que coisas sem utilidade, guardadas, retêm as energias, não as deixando fluir livremente e acabam até desenergizando o ambiente e seus habitantes. Para que as más energias sejam transformadas e fluam é necessário que se faça, periodicamente, uma limpeza em tudo o que costumamos acumular. Devemos nos desfazer de tudo que já não serve mais, está quebrado, colado, não é mais original.

Eu não sou supersticioso e nem me deixo guiar pelas crenças esotéricas, mas não custa nada seguir alguns preceitos, afinal mal não há de fazer... porisso, vira e mexe me sacrifico tentando limpar um pouco as minhas gavetas, pois é aí que minhas energias se perdem. Entre tantas lembranças, tantas histórias.

Há algum tempo resolví que minha estante estava superlotada de livros que nunca mais iria ler. Serviriam apenas para juntar poeira. Então, num arroubo de coragem, comecei a separá-los. Cheguei a separar mais ou menos metade deles, mas aí o apego, o sentimento de posse, ou mesmo o afeto criado durante a leitura, começaram a me deixar em dúvida. Aquele, cuja história me emocionou; o outro, presenteado por um amigo muito especial; aquele outro, ainda, já esgotado nas livrarias, estava se tornando peça de sebo. Este, foi a Célia quem deu, no meu aniversário do ano passado. E este, eu ganhei do Paulo, no Natal de 1998; tem até uma dedicatória... e assim, iam voltando para a estante, aos poucos, os livros antes ameaçados de despejo. Mas conseguí uma vitória! Enchí três caixas com muitos deles que não tiveram argumentos suficientes para me convencer a mantê-los. Aí, veio a dúvida maior: o que fazer com eles? Vender? Nem pensar. Doar? Claro, mas para quem? Meu gosto é tão eclético, os assuntos tão diferentes, que dificilmente poderiam ser doados a uma biblioteca. Perguntei no asilo, mas os velhinhos já não lêm mais. Então, enquanto não encontro destinho melhor para eles, aconcheguei-os bem pertinho de mim: as três caixas de papelão, devidamente seladas com fita adesiva, estão em baixo da minha cama.

Agora estou às voltas com uma outra caixa de papelão. Ela está cheia de cartas. Cartas recebidas ao longo de anos, vindas de diversos pontos diferentes deste mundão de meu Deus. Conseguí a proeza de, pelo menos, reuní-las todas nessa caixa, mesmo que os remetentes nem sempre se conheçam e, muitos deles, nunca se irão conhecer mesmo. Alguns até já não estão mais neste mundo. Eu as separei, relí algumas, juntei por remetende e fui guardando na caixa, boca aberta, apetite voraz. Todas acomodadas em seu interior, suas tampas se fecharam sobre elas e pretende guardá-las, até quando? Não sei. Sei que grande parte dessas cartas deveria ir mesmo para o lixo, pois não tenho contato com as pessoas que as criaram há tanto tempo... outras, perderam a razão de ser, por desamor, ou pela falta de (acho que tanto faz). Algumas trazem ótimos momentos, envoltos em saudade de tempos que não voltam mais. Outras ainda machucam, fazem mal, remexem feridas. Será que vale a pena guardá-las? Não sei e não ouso responder.


 Zeca07 - 22h38
[   ]




...continuação da publicação anterior, onde Dira, Rick e Zeca fazem, a seis mãos, uma brincadeira chamada



O canto misterioso




Mas, para tudo tem um preço. A chuva se manifestou e transmitiu o recado dos deuses, na sua voz de trovão, voz que só os eleitos compreendiam. Num relâmpago falou:

- Escolham: ou a música ou o amor. ( eles... já se amavam) Se optarem pelo amor, Fasol perderá voz. E o homem, o dom de tocar. Sua cítara virará pedra e, com o tempo, pó. Mas, se o amor vencer e for a escolha, dos olhos de cada um sairão luzes de paz e luzes de prazer. E o amor será implantado nessa terra. Até as águas poderão amar e umedecer os lábios das margens do rio. Escolham...(Ricardo)



Numa voz forte e potente, o Homem, que segurava entre as suas, as mãos de Fasol, falou:- Escolhemos o amor! Falo em meu nome e em nome do meu amado cuja voz já emudeceu. Minha cítara virará pó e cada átomo dela espalhado pelo universo, levará nossa mensagem de amor .

Silêncio absoluto. Nada se movia no universo. Os deuses, deveriam estar confabulando, intrigados ante o tamanho daquele amor, capaz de abdicar do maior tesouro que cada um possuía apenas para permanecerem juntos.

Finalmente, o sol estendeu seus raios de trás de uma nuvem que recomeçou sua lenta caminhada pelo azul puro do céu. A figueira-da-índia, agitou suas folhas em doce farfalhar ao ser acariciada pela brisa, enquanto o Rio Min retomava seu curso, enviando suas águas para algum lugar misterioso. Nas distantes montanhas alguns sons indistintos e um ou outro ser estranho alçava vôo, elevando-se em direção ao sol e depois voltando ao ponto de partida. Pequenos risquinhos escuros recomeçavam a deslizar pelas águas, movendo-se numa dança ao som do universo.

Fasol e Homem se olhavam nos olhos, mãos entrelaçadas e as respirações elevando seus peitos no mesmo ritmo dos raios de luz que iluminavam seus sorrisos de paz e infinita felicidade.

Agora eram, ambos, mortais. (Zeca)



Com todas as fraquezas e grandezas que completam o mortal. Eram dias de grande felicidade entre eles. Ao redor, a harmonia e a serenidade equilibravam-se na natureza que a tudo contemplava, cúmplice que era daquele amor.

Fasol, sem voz, cuidava dos jardins e das árvores da mata. E o homem, agora sem instrumento, fazia de suas tarefas diárias, verdadeiras sinfonias de amor à vida. Mas para que a monotonia não viesse destruir a plenitude do ambiente, logo o homem sentiu falta da cítara, e Fasol passou a entristecer pela voz que saia rouca. Olhavam-se todos os dias sem mais o brilho dos deuses. E as noites perdera a alegria de contar estrelas.

Dispersos, Fasol e o Homem já não eram os mesmos, porque ambos eram o que eram seus instrumentos... a arte de comandarem a luz pelos seus dons. Era tudo tão perfeitinho, que os deuses passavam os dias dormindo, sem terem mais com que se ocupar.

Até que Fasol, cansado de ser mortal, lançou-se no rio em busca dos sons das pedras, e da água que descia fagueira a cachoeiras de contas. Morreu no fundo do rio, onde dizem hoje, ser um encontro das águas, entre o rio e o mar. Nas luas cheias, o encontro das águas provoca um som indescritível, como uma sereia que canta, encantando os peixes que sobem o rio para procriar.

O Homem, desencantado, desejou ser peixe e mergulhou no rio em busca de Fasol. Dizem as lendas, que ele é o peixe mais lindo do rio, e o maior entre todos. E que nas noites de grande lua, abre a boca enorme e solta no rio milhares de sons que se misturam aos sons das águas que se encontram... O contato das águas entrando em sua boca, é como um choro, um lamento de encantamento.

Quando rio e o mar se encontram, os sons se misturam e o encantamento faz a ilha de pedra desaparecer do mapa. É assim, que ambos, arrependem-se e choram não ter vivido em vida os dias iguais. Para sempre seriam uma orquestra de beleza e lágrimas. (Dira)


 Zeca07 - 22h36
[   ]





  "
 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Livros, Cinema e vídeo, Pintura
Outro -
Histórico:
  01/04/2007 a 30/04/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006
  01/10/2006 a 31/10/2006
  01/09/2006 a 30/09/2006
  01/08/2006 a 31/08/2006
  01/07/2006 a 31/07/2006
  01/06/2006 a 30/06/2006
  01/05/2006 a 31/05/2006
  01/04/2006 a 30/04/2006
  01/03/2006 a 31/03/2006
  01/02/2006 a 28/02/2006
  01/01/2006 a 31/01/2006
  01/12/2005 a 31/12/2005
  01/11/2005 a 30/11/2005
  01/10/2005 a 31/10/2005
  01/09/2005 a 30/09/2005
  01/08/2005 a 31/08/2005
  01/05/2005 a 31/05/2005
  01/03/2005 a 31/03/2005
  01/02/2005 a 28/02/2005
  01/01/2005 a 31/01/2005
  01/12/2004 a 31/12/2004
  01/11/2004 a 30/11/2004
  01/10/2004 a 31/10/2004
  01/09/2004 a 30/09/2004
  01/08/2004 a 31/08/2004
  01/07/2004 a 31/07/2004
  01/06/2004 a 30/06/2004
  01/05/2004 a 31/05/2004


Blogs que leio:
  ÁGUIA SERENA
  ANA
  ANDRESA
  ALF
  BEAGAY
  BRUNA
  CECI
  CLARICE
  CLAUDINHA
  CIGANINHO
  CHERRY
  CRYSTAL
  DE (AGILIZA)
  DO
  DORA
  DRIKA
  ELAYNE
  ELZA
  GIULIA
  GRACE
  HEBE
  INDIANIRA
  JANE I
  JANE II
  JEANETE RUARO
  JÉSSICA
  JÉSSICA II
  JOTA EFFE ESSE
  JU = MEDO DE AVIÃO
  JU = NAVEGANDO
  JULIO CESAR
  KARINE
  KATHY
  KEILA, A LOBA
  KERY
  LANA
  LIANNARA
  LINO RESENDE
  LOBABH
  LOBA/PALIMPNÓIA
  LUCIA MI
  LUZES DA CIDADE
  MAGUI
  MANOEL DONINI
  MÁRCIA(CLARINHA)
  MÁRCIA DO VALLE
  MARCO
  MARILIA
  MARY
  MASCARADOS
  MENSAGENS ESPIRITUAIS
  MESTRA DOS SONHOS
  MEU CARO VINHO
  MC MIGUEL
  MILY
  NANI
  NEY ALEXANDRE
  NORMANDO
  O APANHADOR DE SONHOS
  PLUTO FILHO DA PLUTA
  RAFAEL
  RAINHA DE COPAS
  ROSA
  ROSEMARI (I)
  ROSEMARI (II)
  RUBO JÜNGER
  SANDRA / AMERS
  SANKA
  SARAMAR (I)
  SARAMAR (II)
  SARAMAR (III)
  SERGIO
  SETH
  SIDPIM
  SIMPATIAEESCULACHO
  SONIA
  TANER
  TOM
  VOANDO PELO CÉU DA BOCA


VOTAÇÃO
 Dê uma nota para meu blog!


Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com




O que é isto?