UM POUCO DE MIM = parte 5
Assustado com minha aparência que, em muitos anos não havia tido coragem de olhar, convencí meu amigo cirurgião plástico a fazer uma lipoaspiração em mim. Como havia acabado de passar pelo check up anual e tudo estava bem com minha saúde, de sua casa em Arraial do Cabo mesmo ele ligou para os demais membros de sua equipe em Niterói e, por uma série de fatores, conseguiram sala de cirurgia, apartamento em hospital e tudo o que era necessário para a cirurgia no dia seguinte logo pela manhã. Passamos o resto do dia conversando a respeito do assunto, claro que na Praia do Forno, um dos belíssimos locais meio escondidos de Arraial. À noite, fui deitar-me, pois deveríamos acordar às quatro da madrugada para irmos pra Niterói a tempo de fazer a intervenção cirurgíca. Já estava dormindo, quando meu amigo entrou no meu quarto com um copo com água e um comprimido. Perguntei o que era aquilo e ele disse que eu precisaria dormir muito bem para estar totalmente descansado no dia seguinte e que aquele era um calmante, que recusei, claro! Eu não estava nervoso! Continuei dormindo até me levantar por volta de uma da madrugada para ir ao banheiro. Percebí que havia luz acesa na sala de tv e fui até lá apagar. Era o meu amigo que estava vendo um filme, pois não conseguia dormir de tão nervoso que estava! Fiz com que ele tomasse o calmante, pois ele, como médico, precisaria estar descansado e tranquilo para um bom resultado no seu trabalho. Enfim, às nove horas da manhã seguinte eu já estava instalado no quarto do hospital e, a meu pedido, recebí anestesia total. Quando acordei, lembro vagamente de ter visto um rosto de anjo sorrindo para mim e perguntando como eu estava me sentindo. Era a anestesista, uma linda morena carioca. Voltei a dormir e só acordei quando já estava novamente deitado no meu quarto, com uma enfermeira arranjando a minha cama. Não sentí absolutamente nada. Nem mesmo precisei tomar qualquer analgésico, pois não sentí dores pós operatórias. Minha gordura estava acumulada na barriga e, assim, foram feitas apenas duas incisões, uma de cada lado da virilha, por onde entraram as cânulas que sugaram o excesso de gordura. Meu amigo não quis me contar quantos quilos de gordura foram aspirados. No dia seguinte tive alta do hospital e fui para o apartamento do meu amigo, onde permanecí em estado de repouso por aproximadamente uma semana. Ele cuidava de minha alimentação, trocava os curativos e me dava banho. Após uma semana eu já me sentia perfeitamente à vontade e comecei a ensaiar os primeiros passos e o primeiro banho sozinho. Depois começamos a sair um pouco de casa, primeiro de carro, depois para curtas caminhadas à beira mar. Até que me sentí pronto para voltar para casa. Antes, fui ao shopping e comprei algumas roupas novas, diversos números menores do que as que eu costumava usar. Quando voltei para casa, ninguém me reconhecia! Estava magérrimo! Claro que, durante essas duas semanas, aproveitei para fazer uma super alimentação à base de verduras, frutas e carnes brancas para ajudar a perder peso. Após um mês, havia perdido vinte quilos. Minha auto-estima estava nas alturas e até mesmo um namoradinho com a metade da minha idade eu arranjei. Preciso dizer que estava há anos sem ninguém, nem vida sexual.
Quando retomei minhas consultas semanais à psicoterapeuta, ambos nos surpreendemos! Eu estava usando aquela cinta elástica que me acompanhou por três meses e ela... também! O que houve? Fiz uma lipoaspiração! Após as gargalhadas, constatamos que ela aproveitou minhas pequenas férias pra marcar uma lipo que já vinha querendo fazer há algum tempo. E eu, coincidentemente, durante as minhas férias com um cirurgião plástico, acabei decidindo fazer uma também. Nossos motivos foram diferentes, claro! Ela, uma mulher muito bonita, bastante vaidosa, queria fazer algumas correçõezinhas, inclusive na barriga, pois é mãe de dois filhos. E eu, já em processo de quase cura da depressão, voltando a gostar de mim mesmo, me curtindo, querendo elevar cada vez mais minha auto estima, havia resolvido tirar algo que não me pertencia: aquele excesso de gordura.
Passei três meses me cuidando muito, com a cinta elástica permanentemente, fazendo várias sessões de fisioterapia e passando a frequentar uma academia de ginástica, com um personal treiner que, por sinal, era o proprietário da academia. Ele, profissional orientado pelo meu médico e pela minha fisioterapeuta, me dava exercícios leves e próprios, de tal forma que, no final dos três meses e com alta do meu médico (meu amigo), voltei a comprar roupas. Qual não foi minha surpresa ao comprar algumas camisas tamanho P? E calças jeans e bermudas tamanho 42? Foi meu momento de glória! Por essa época, com minhas constantes visitas ao consultório do meu amigo em Niterói, ele acabou me convencendo a tingir os cabelos grisalhos e deixá-los crescer um pouco mais. Confesso que fiz pela efervescência do momento e pelas alegrias das redescobertas que estava fazendo. Mas aquilo nunca me agradou. Quando me olhava ao espelho, sentia a nítida sensação de estar usando peruca. Um dia, cansado de ir à cabeleireira duas vezes por mês para tingir os cabelos e passar tantas drogas para tê-los lindos, macios, sedosos e sei lá mais o quê, anunciei: Fatinha, hoje não quero tingir e quero que você passe a máquina quatro. Disse isso com tanta convicção que ela não retrucou e obedeceu prontamente. Saí de lá me sentindo muito mais bonito, muito mais natural. Claro que levaram ainda uns dois meses para sairem todos os vestígios de tinta dos meus cabelos. Mas hoje me orgulho deles curtinhos e totalmente grisalhos.
Após essa visita de mais de um mês dos meus pais, estou alguns quilinhos mais fofo novamente, mas nada que chegue perto do que já fui há alguns anos. Hoje oscilo entre os setenta e cinco e os oitenta quilos atuais, para uma altura de um metro e setenta e seis. Nada que uma forcinha de vontade não possa corrigir. E acho que está muito bom assim. Nos últimos anos andei fazendo um pouco de musculação, o que me deixou com os braços mais fortes e o peito mais largo. O que estraga um pouquinho são as pernas grossas (que a minha amiga Luna diz amar de paixão) e a bunda portuguesa (grande)... risos... Mas no geral, estou satisfeitíssimo comigo, com o meu corpo, com a minha aparência de vários anos menos do que realmente tenho e minha alegria permanente, absoluta falta de mau humor. Também tenho enorme disposição para os amigos, os quais amo com todo o meu coração e aos quais sou fidelíssimo e extremamente apegado.
Vocês pensam que a saga terminou?... risos... ts, ts, ts... ainda tem mais...


 Zeca07 - 23h22
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UM POUCO DE MIM = parte 4
Em São Lourenço, abrimos a filial da loja de Paraty e, no início, ficávamos nos dividindo entre as duas lojas, as duas cidades. Em pouco tempo, a nova loja começou a se consolidar e nós fomos perdendo o interesse pela outra. O meu amigo, que ficou lá, acabou levando o irmão (um excelente pintor), para morarem e trabalharem juntos. Aos poucos também passaram a privilegiar a pintura e, em mais ou menos dois anos, sem desgastes nem brigas, acabamos separando a sociedade. Meu amigo e o irmão ficaram com a loja de Paraty, que transformaram, aos poucos, em galeria. Até hoje eu tenho metade da casa onde eles moram. E meu companheiro ficou comigo em São Lourenço, ambos com a nova loja. Nesse mesmo período, por vários motivos, fomos nos distanciando e modificando o relacionamento. Quando foi feita a separação da sociedade, já éramos apenas bons amigos que moravam juntos e tinham uma linda loja de presentes e objetos de decoração. Novamente uma das melhores da cidade e da região.
Ao mesmo tempo em que tudo isso se passava, sem perceber, fui entrando em um profundo processo de depressão. Sem perceber. Fui engordando, perdendo o interesse pelas coisas que gostava, pelas viagens, cinema e teatro (que adoro), até mesmo pelos amigos, pois já não sentia mais prazer em estar com pessoas. Comprei um terreno grande em um condomínio e construí uma casa projetada por mim. Criei um jardim belíssimo e me tranquei em minha prisão dourada. Nessa época não via mais ninguém e, quando os amigos me procuravam, me afastava, dava desculpas, fugia. Fui entrando cada vez mais para dentro de um mundo só meu, habitado pelos meus fantasmas, pelas minhas fantasias e alimentado por enormes quantidades de pizzas, massas, doces e refrigerantes.
Trabalhava muito! Com o advento da internet, logo estava administrando a loja pelo computador, não precisando nem mesmo estar fisicamente lá. O meu sócio fazia isso. Eu ficava em casa acessando tudo pela internet. Fornecedores, bancos, clientes, estoque, tudo pode ser administrado de longe. Virei um ermitão, recluso, gordo e calado. Passava o tempo todo entre os cuidados com o meu jardim, o computador e a TV, onde via filmes. E à noite, um inferno me rodeava! Eu dormia até duas, no máximo três horas da madrugada, acordava e não conseguia dormir mais. Ficava acordado até amanhecer, levantava, tomava um super café da manhã, cuidava do jardim, fazia meu trabalho, via TV e ia novamente dormir. Começava tudo de novo. Até que...
Ainda morando em Paraty, caí da bicicleta. Na hora não sentí nada, mas com o passar do tempo, comecei a sentir uma dor no braço esquerdo que foi paralisando. Procurei um ortopedista, que pediu uma radiografia e disse que não era nada. Recomendou umas sessões de fisioterapia e pronto. Mas a dor era persistente. Como a fisioterapia não havia resolvido nada, optei pela acupuntura. Mais um mês aplicando as agulhas e o braço cada vez mais imobilizado pela dor. Até que um amigo, médico homeopata, pediu para ver a radiografia. Havia quebrado o braço, embora isso fosse pouco perceptível. Tirei outra e já havia formado uma calosidade no lugar. Fiz outro tratamento com outro ortopedista, com braço imobilizado junto ao corpo por mais trinta dias, até que, um ano depois, com muita fisioterapia, não sentia mais dores. Anos depois, já em São Lourenço, comecei a sentir novas dores no mesmo braço. Novo tratamento, novas sessões de fisioterapia durante aproximadamente um ano e nada! Cansado de tantas idas a São Paulo para o tratamento, resolví apelar para um médico local, também ortopedista, que, após uma conversa de aproximadamente uma hora, diagnosticou que o meu problema principal não era o braço, mas sim a depressão. Saí do consultório dele diretamente para o de um psiquiatra, iniciando imediatamente um tratamento para a cura da depressão.
De um lado, os remédios receitados pelo psiquiatra. Do outro, fisioterapia para a dor no braço. No meio, psicoterapia. Pouco a pouco fui recobrando alguns prazeres, voltei a procurar pessoas e saía de casa com mais frequência. Foram uns dois anos de efervescência. Passei de um gordo acomodado, solitário e afastado do convívio social a um gordo menos infeliz, menos solitário e com algum convívio social. Até organizei algumas reuniões em casa, voltei a ser convidado para festas e voltei a viajar por prazer. Ia para São Paulo onde passei a reencontrar velhos amigos e reavivar os laços de amizade, para o Rio onde tenho alguns ótimos amigos e até para Belo Horizonte, para rever velhas amizades e até mesmo conhecer um novo, que era “amigo virtual”. Fiz algumas viagens, passei um mês rodando por Portugal (um antigo sonho), fui conhecer Nova Iorque, que nunca havia querido visitar (e adorei!), fui comemorar um aniversário nas Serras Gaúchas, sem contar outras viagens menores, para cidades históricas mineiras, interior de São Paulo, enfim... estava mudando tudo em minha vida!
Em uma dessas viagens, estava em Arraial do Cabo com meu amigo que é cirurgião plástico. Íamos a uma praia distante da cidade e eu subí para pegar bronzeador, camiseta e boné. Descendo a escada, olhei para a parede do outro lado, totalmente em espelhos, e levei um susto! Aquela pessoa não era eu! Era um sujeito gordo, barrigudo, disforme! Eu sempre fora relativamente bonito, corpo legal, bem vestido! Era a primeira vez em anos que tinha coragem de me olhar em um espelho grande, onde podia ver todo o meu corpo. No mesmo dia, após longa conversa com meu amigo, decidimos voltar para Niterói, onde ele mora e, no dia seguinte, pela manhã, estava numa sala de cirurgias fazendo uma lipoaspiração.
Qualquer dia desses tem mais...


 Zeca07 - 19h59
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UM POUCO DE MIM – parte 3
Meu amigo havia encontrado uma casa que estava à venda e que parecia sob encomenda para o que queríamos. Queríamos comprar juntos uma casa razoavelmente grande, para morarmos e termos alí um atelier de pintura, já que ele pintava muitíssimo bem (e ainda pinta). Eu, também, não fazia feio.
O mais incrível de tudo é que aquela casa tinha uma história comigo! No outro período em que havia morado em Paraty, quando tive o bar, o secretário de obras da cidade, indicado por um diretor da Globo, enquanto se instalava ficou morando comigo, a meu convite. Só que, em menos de um mês, já éramos grandes amigos e ele acabou ficando. Ele é formado em arquitetura e tinha um escritório com outro arquiteto, onde faziam projetos. E aquela casa havia sido um dos projetos feitos pelos dois, com alguns palpites meus. Enfim, compramos a casa que estava apenas erguida e coberta, fizemos o acabamento e, em pouco tempo, estávamos morando lá.
Em seguida, encontramos uma galeria que estava sendo aberta e alugamos uma pequena loja lá. Além da loja, que vendia artesanato e quadros, abrí na mesma galeria, um pequeno e charmoso café. Servia café da manhã (excelente, modéstia à parte), tortas e saladas durante o dia e, à noite, os frequentadores tentaram reeditar o clima do antigo bar. Isso eu não queria. Sinto-me orgulhoso em dizer que até hoje me cobram pelo fechamento daquele bar, mas não pretendo ter outro. Como trabalhava demais, entre o café e a loja, não tinha tempo para pintar, que era um dos meus objetivos. Assim, acabei vendendo o café e ficando apenas com a loja. Aí trabalhei durante um tempo com pintura e até que meus trabalhos agradavam. Fazia quadros, papéis de carta e cartões, desenhados a bico de pena e coloridos a aquarela, com o casario de Paraty, gnomos (naquela época era uma febre!), bruxas, anjos, flores e paisagens. Esses papéis de carta e cartões vendiam muito! Tanto que eu não dava conta de produzí-los e não tinha tempo para os quadros. E assim, nossa loja foi crescendo. Quando a loja principal se transferiu para outro local, conseguí alugar o prédio todo e transferimos nossa loja para a entrada da galeria. Era uma loja grande, a maior de todas. Desde o início, a administração de tudo sempre ficou por minha conta. Meu amigo, com sua alma de artista, nunca pretendeu se aproximar dos números, das contas, do planejamento, das compras. Assim, naturalmente, eu fui assumindo tudo isso.
O tempo ia passando e eu acumulando atividades de empresário, afastando-me novamente dos meus objetivos. Era um vício o tal do trabalho, o perfeccionismo com que queria fazer as coisas. Demorei um bom tempo até enxergar isso. A loja foi crescendo e, em pouco tempo, era a melhor da cidade para artesanato, presentes e objetos de decoração. À medida que outras lojas fechavam na galeria, ao invés de alugá-las para outras pessoas, íamos anexando-as à nossa, transformando toda a galeria em uma única e enorme loja. Faturávamos muito e vivíamos muitíssimo bem. Mas também trabalhávamos demais. Quando um lindo casarão foi desocupado, coincidindo com a época da renovação do contrato de aluguel da galeria, nos transferimos para lá e aí a loja ficou realmente linda. Foram alguns anos muito gostosos aqueles.
Após alguns anos, percebemos que a cidade se tornava pequena para nós. Resolvemos abrir uma filial em Campos do Jordão. Nessa época tínhamos um novo sócio na loja, com quem eu mantinha um relacionamento: meu terceiro grande relacionamento. Antes de irmos a Campos do Jordão pesquisar oportunidades de mercado, resolvemos passar uns dias no sul de Minas, em São Lourenço. Passeando pelo parque, ví um prédio recém terminado, ainda com as faixas anunciando o término das obras. Fomos vê-lo e quando voltamos para Paraty, havíamos alugado uma loja e um apartamento nesse prédio. Alí se iniciava a nova loja e uma nova etapa em minha vida.
Esse novo sócio apareceu uma tarde em minha casa, acompanhando uma grande amiga que foi passar o reveillon na cidade. Quando abrí o portão para ela entrar, precisava segurar minha cadela, uma linda labradora negra, para que não fugisse. Pedí à minha amiga que entrasse rápido e batí o portão. O amigo dela estava lá fora e eu não havia visto. Rimos muito desse meu fora e logo nos tornamos amigos. Quando terminou a semana de férias deles, ele e eu já estávamos nos gostando. E em pouco tempo estávamos juntos. Ele acabou se mudando para lá, começou a trabalhar comigo e em pouco tempo já havia conquistado meu outro sócio e daí a morar conosco e, mais tarde, entrar para a sociedade, foi um passo. Ele é um excelente comerciante e sua ajuda foi fundamental para o sucesso da loja. Eu deixei a parte de compras e de estoques com ele, me desafogando um pouco e vivíamos os três felizes e em ótimo relacionamento. Até resolvermos abrir uma filial, viajarmos juntos e nos decidirmos por São Lourenço.
Como um parêntesis, não estou colocando neste relato praticamente nada sobre relacionamentos, pois quero deixar um panorama geral de como tem sido minha vida nesse período. A partir do momento em que tomei a decisão de procurar a minha felicidade.
As histórias pessoais virão a seu tempo.
Mas isso já faz parte de outro capítulo...


 Zeca07 - 20h29
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Olá, pessoas!


Voltei para casa ontem à noite, graças a Deus muito bem e com meus exames médicos totalmente atualizados e em ordem. Minha pequena cirurgia obteve o sucesso esperado e a cicatriz quase não pode ser notada, até mesmo por estar junto à sobrancelha esquerda. Era mesmo um baso celular, mas foi totalmente extirpado e tudo o que preciso fazer agora é ficar atento caso apareça qualquer outra lesão semelhante. Nada com que me preocupar.
Eu deveria continuar minhas histórias aqui, mas em função de algumas mensagens deliciosas, recebidas de algumas pessoas que são muito especiais, resolví antes fazer alguns comentários.
A cada dia mais me encanto com esta "blogosfera"! (De quem copiei o termo mesmo? Foi de alguém daquí, mas não consigo lembrar quem.) Em todo caso, resistí aos tais dos "blogs" por muito tempo, por puro preconceito, não devo nem ao menos esconder isso, já que parte de minha postura atual luta bravamente contra todos os tipos de preconceitos. O problema é que eles existem arraigados em nossa personalidade e apenas com muita força de vontade e determinação podemos ir nos livrando dos mais disfarçados que se agarram e não nos deixam em paz.
Eu tenho formação católica, de família portuguesa. Sou ex-seminarista, ex-congregado mariano, ex-crente. Hoje, minha fé inabalável em Deus, me permite aceitar com reservas os ensinamentos católicos, aliando-os aos ensinamentos espíritas, esses sim, totalmente aceitáveis por este homem de quarenta e muitos outonos. Mas este é assunto para falarmos no futuro. Quero apenas dizer que, muito do que penso e vivo hoje, devo à minha disposição de sempre aprender com as outras pessoas. E tenho aprendido muito com a comunidade blogueira.
E tenho aprendido muito, especialmente, com pessoas bastante jovens. Não vou citar nomes, pois poderia ferir algumas pessoas por omissão, o que não é o caso. Recebí alguns e-mails de alguns destes maravilhosos Amigos Virtuais feitos neste espaço, em tão pouco tempo, que tiveram importância fundamental para mim. Mostram a existência de sentimentos tão desacreditados nos dias de hoje. E mostram, especialmente para mim, a existência de pessoas maravilhosas que meus próprios preconceitos desqualificavam, apenas por serem muito jovens. Existem pessoas maravilhosas pertencentes a todas as faixas etárias. Esta é uma afirmação que hoje eu posso fazer, com a alma plena. Mas até pouco tempo, eu achava que só existia vida inteligente a partir de uma determinada faixa etária, não dando a menor atenção a quem estivesse abaixo dessa linha traçada aleatóriamente por mim.
Acho importante fazer esta confissão, pois percebí em mim mudanças de comportamento bastante significativas a partir do momento em que comecei a ler blogs de pessoas mais jovens, comecei a prestar atenção ao que eles têm a dizer (E, COM CERTEZA, TÊM MUITO A NOS DIZER!), e, pouco a pouco, com suas palavras, suas lições de vida, seus ensinamentos, comecei a perceber aquele sentimento que tomava conta de mim e me impedia até de relacionar-me com pessoas mais jovens, por colocar todos num mesmo cesto, o do preconceito. Tenho aprendido muito neste novo universo, tenho me tornado uma pessoa melhor e muito mais consciente de mim mesmo. Graças a todos os escritores que visito e com quem me relaciono virtualmente, mas não posso deixar de salientar que, grande parte dessas mudanças que venho observando, devo às pessoas jovens, com sua sensibilidade aguçada, seu olhar sincero, suas palavras carinhosas e sábias.
Quero deixar aquí, registrada publicamente, a enorme dívida de gratidão que tenho com todos vocês, Amigos Virtuais que venho fazendo nestes últimos três meses. E uma dívida muito especial com os blogueiros jovens, que me mostraram um novo mundo, que eu, embrutecido pela vida "adulta" me recusava enxergar. Tenho descoberto pessoas lindas e íntegras, que passariam desapercebidas sem suas posturas claras, sinceras, honestas. Devo muito aos blogueiros jovens. E a todos eu agradeço esse carinho e respeito que tenho recebido.


 Zeca07 - 12h16
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Antes do post de hoje, gostaria de avisar os amigos blogueiros que estarei fora por alguns dias. Sempre que puder, estarei visitando os amigos, mas só devo postar novamente na próxima semana, lá pelo dia 22. Vou a São Paulo terminar o check up e passar pelo cirurgião para que ele constate o sucesso da intervenção. Até a volta!
UM POUCO DE MIM – parte 2
Continuando a contar um pouco sobre minha procura por uma vida mais equilibrada, onde eu pudesse me sentir melhor e mais feliz, após o fechamento do bar eu tentei ficar em Paraty, gerenciando uma pousada, mas em pouco tempo percebí que meu grande perfeccionismo não me permitia relaxar e curtir. Ficava diariamente por conta da pousada das seis da manhã, onde supervisionava a arrumação do salão para o café da manhã, até onze da noite, ou meia noite, após o último hóspede se recolher. Eu participava de tudo, da limpeza dos apartamentos, dos cardápios diários, do atendimento em geral, enfim... trabalhava demais. E a culpa era só minha, pois não era obrigado a trabalhar tanto! Mas fazia questão de que tudo fosse perfeito, sendo eu mesmo tão imperfeito! Acabei me demitindo quando recebí um convite para voltar a São Paulo e assumir um cargo na secretaria estadual de saúde, onde trabalhei por um ano. Foi uma experiência maravilhosa, pois pude aprender muita coisa sobre administração pública e administração hospitalar, entre outras coisas. Aprendí a lidar com orçamentos públicos, com verbas e muitas outras coisas.
Estando novamente em São Paulo, acabei me encontrando com alguns amigos das empresas em que havia trabalhado nos últimos anos. E logo comecei a receber convites para voltar para o grupo. Até que, uma proposta realmente tentadora me convenceu a voltar. Fui para uma posição de destaque dentro do grupo, ligado diretamente ao presidente da empresa no Brasil e era o responsável por todo o planejamento financeiro para todas as empresas coligadas. Participava de negociações, compra e venda de empresas, enfim, tinha um trabalho invejável e ainda com pouca idade. Era, na época, um dos executivos mais novos no mercado. Tinha altos contatos, vivia em festas, recepções, almoços e jantares de negócios. Mas esse lado mais “festivo”, na verdade, escondia o lado “negro” das minhas responsabilidades. Não tinha horário para sair, raramente podia programar viagens mais longas, pois como participava de negociações importantes, às vezes era obrigado a desmarcar compromissos já assumidos e, com o tempo, fui me frustrando, pois não era nada disso que eu queria para o resto da minha vida.
Minha vida de executivo permitia luxos como ter um belo apartamento nos jardins, carro com motorista, já que eu não dirijo, frequentar lugares caros e badalados, viagens para fora do país, não ter problemas financeiros e muitas outras comodidades. Por outro lado, me sobrava muito pouco tempo para dedicar à vida pessoal, a um relacionamento decente (embora tenha tido dois, bastante longos), a um crescimento pessoal e espiritual.
Sempre gostei de arte, especialmente de desenhar e pintar. Como comecei a trabalhar antes do curso universitário, nunca pude fazer nenhum curso e, após, já com grandes responsabilidades, não conseguia fazer nada a sério. Tentei fazer jornalismo, entrei na Cásper Líbero, mas acabava faltando mais do que assistindo aulas e desistí. Procurava pintar nos finais de semana, mas como sou bastante “amigável” e “popular”, sempre tive várias pessoas à minha volta e acabava não tendo tempo pra isso também, pois saía muito, para teatros, cinemas, restaurantes, boates. E com isso, minha vida ia passando, sendo empurrada com a barriga e nada de encontrar a tal da felicidade.
No início de 1990 eu conseguí marcar férias. Passei o carnaval em Paraty, onde me divertí demais. Embora não seja muito de beber, nessas férias, cheguei a tomar um dos maiores porres da minha vida, que foi bom demais! Após uma semana deliciosa fui pra Arraial do Cabo, onde um amigo tem casa e fiquei alguns dias por lá. Depois fui encontrar com outro amigo em Petrópolis e, de lá, íamos ambos pra Manaus... mas o Plano Collor cortou minhas férias. Assim que vimos pela TV o pronunciamento da Zélia, eu voltei pra São Paulo, pois precisava estar na empresa pra decidir com a diretoria como iríamos nos arranjar. Eu mesmo, embora não tenha recebido nenhuma informação extra-oficial, juro, havia sacado praticamente toda minha poupança e transformado em dólares, pois tinha certeza de que alguma coisa o povo collorido iria aprontar... e isso foi a minha salvação! Enquanto a maioria das pessoas tinha que se virar com os tais cinquenta cruzeiros (se não me engano a moeda era essa...), eu estava rico. Pois tinha uma verdadeira fortuna em dólares para os padrões da época!
Um dos meus melhores amigos morava comigo e também em férias, voltou. Numa sexta feira, havíamos combinado irmos juntos para Paraty, pois uma amiga que morava lá fazia aniversário e daria um churrasco no final de semana. Logo cedo, assim que cheguei ao escritório, meu amigo telefonou dizendo que havia sido demitido do seu emprego. Nos encontramos após o almoço para irmos viajar e ele me contou tudo o que havia acontecido. Ele é de Belo Horizonte e trabalhava há mais de vinte anos no mesmo banco, seu primeiro e único emprego. Quando voltou das férias, simplesmente recebeu sua demissão, sem maiores explicações. À medida que ele me contava o acontecido, uma revolta foi tomando conta de mim e decidí: iria pedir demissão novamente! E propús a ele que, se quisesse, nos mudaríamos para Paraty e lá, abriríamos uma loja ou qualquer coisa assim. Ele, sem poder acreditar, acabou topando e, no domingo, voltei sozinho pra São Paulo, pois ele já ficou lá procurando casa, ponto comercial e etc.. Eu sou assim mesmo. Dizem que é influência do signo (Áries), mas costumo decidir as coisas de estalo. Meus diretores não podiam acreditar que, em poucos anos eu estava me demitindo novamente. Tentaram me convencer que era loucura; que não daria certo mais uma saída de São Paulo; que com o passar dos anos eu chegaria a uma idade em que conseguir emprego não seria fácil, mas nada me convenceu. E após uns três meses de negociações eu estava novamente desempregado e me mudando para Paraty.
Bem, mas esse já é outro assunto...


 Zeca07 - 18h19
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Um pouco de mim


Há alguns dias, no Quase Terminado, o Ney Alexandre publicou um texto sobre 'o trabalho, o ócio e a felicidade' que me instigou a também escrever sobre o assunto.
Mas ao invés de comentar, o que o Ney já fez brilhantemente em seu texto, vou dar o meu próprio enfoque, falando da minha experiência. Não sei falar pouco. Entretanto, em respeito aos leitores tentarei fazer um texto mais enxuto.
No início da década de noventa resolví chutar o balde e mudar completamente a minha vida. Coincidentemente com o texto, foi em função das três respostas que encabeçam o ranking da pesquisa feita por Domenico de Massi em seu livro "O Ócio Criativo", mencionado pelo Ney, que resolví mudar tudo.
Eu não estava satisfeito com o que fazia, na verdade não gostava da minha vida. Não tinha propriamente um bom aproveitamento do tempo livre, até mesmo por não tê-lo e, claro, não era feliz! Até me sentia contente, pois sou naturalmente bem humorado e procuro manter o bom astral. Mas não era feliz.
Já havia feito uma tentativa, seis anos antes, quando, num impulso, comprei um bar gay e decadente em Paraty. O então dono do bar, um querido amigo, não aguentava mais aquela rotina e queria partir para outras buscas. Foi deixando a peteca cair e o bar, que havia sido uma referência, foi definhando, até que ele, completamente desestimulado, resolveu vendê-lo. E eu, impulsivo, comprei!
Acontece que eu era executivo em uma grande multinacional, onde ocupava o 'importante' cargo de Gerente Financeiro, posição em destaque na década de oitenta, com a inflação em alta e o que importava era o gerenciamento do dinheiro, muito mais que a produção ou as vendas. E devo confessar que era um ótimo profissional. Respeitado no mercado e no grupo de empresas em que trabalhava. Sou formado em economia, com pós em administração e construí uma carreira relativamente brilhante com alguns anos de trabalho na área.
E após um telefonema do amigo de Paraty, entrei na sala do meu diretor e pedí demissão! Ninguém entendeu nada, queriam me dar férias, ou que eu repensasse minhas decisões. Até aumento de salário e de benefícios me ofereceram... mas eu fui inflexível, cumprí o aviso prévio, treinei meu assistente para se tornar meu substituto e me mudei pra Paraty.
Meu amigo, incentivado pela minha decisão, resolveu ficar comigo até me passar sua experiência no negócio. Outros amigos que eu já tinha na cidade, passaram a frequentar o local, levando seus familiares e fazendo movimento. Até música dos Menudos eu tocava, pois faziam o sucesso entre a molecada na época e eu queria tirar aquele 'estigma' de que era um bar gay. Em pouco tempo o bar mudou de cara, numa mistura muito gostosa onde todos conviviam pacificamente. Comecei a investir em cultura, ajudando a resgatar grupos de cirandeiros locais e patrocinando a criação de um coral. Os cirandeiros tocavam todas as semanas na entrada do bar, atraindo muita gente e fazendo com que a rua toda virasse uma grande festa popular. Tentamos formar um grupo de teatro, chegamos inclusive a iniciar a leitura de uma peça. Esse projeto não deu certo. Fizemos várias exposições, de fotografias, desenhos, aquarelas, além de alguns lançamentos de livros. Logo o bar voltou a seus velhos tempos de glória, com gente saindo pelo ladrão e eu, muito feliz em minha nova atividade.
Após dois anos, não aguentava mais aquela vida. Nunca fui boêmio e, de repente, era dono de um bar que funcionava todos os dias, até seis, sete horas da manhã. Eu ia dormir e logo precisava receber fornecedores de bebidas, de frios, fazer compras no mercado, enfim, preparar a infra estrutura para a próxima noite. Fui ficando cansado e não sabia muito bem o que fazer. Até que o plano cruzado, do Sarney, me fez amargar enorme prejuízo, pois estava super estocado de bebidas e elas foram tabeladas por baixo, num preço muito inferior ao que eu havia pago. Passei um mês consumindo o estoque e, na Páscoa, que coincidia com o meu aniversário, fiz uma grande festa e fechei o bar.
Recebí um presente maravilhoso nesse dia! Estava descansando à tarde, quando uma amiga me chamou, pedindo que descesse até a porta de entrada. Quando saí, o coral do qual era o padrinho formava um semi círculo e começou a cantar. Além dos aproximadamente trinta integrantes do coral, estavam todos os meus amigos e clientes, deixando a rua totalmente entupida. Cantaram várias músicas e eu chorei muito de emoção. Estava fechando com chave de ouro minha aventura como dono de bar.
Dalí fui fazer uma experiência como gerente da pousada do Paulo Autran, que me convidava insistentemente para isso. Fiquei três meses, fui bem sucedido, mas não gostava de gerenciar um hotel. Por convite de um amigo, que era parente do então secretário da saúde de São Paulo, fui trabalhar como assessor de planejamento, ficando aproximadamente um ano na administração hospitalar e criação das unidades básicas de saúde. Era o responsável pelo orçamento da área e pelo gerenciamento de um empréstimo do Banco Mundial para esse fim. Gostava do desafio, mas ainda não me sentia feliz. Meus antigos diretores, sabendo de minha volta a São Paulo, começaram a me convidar para voltar para o grupo, até que o poder de fogo da multinacional acabou comprando o meu passe de volta. Passei para a área de planejamento financeiro, agora para todas as empresas do grupo. Até que, em 1990, alguns acontecimentos fizeram com que eu, finalmente resolvesse chutar o balde e provocar mudanças radicais em minha vida.
Isso fica para o próximo texto.


 Zeca07 - 22h05
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Tenha uma boa semana


Tenho estado bastante ocupado nos últimos dias, porisso não tenho postado. Mas nos próximos dias devo retornar com mais afinco ao computador. Entretanto, recebí hoje, da minha amiga Dira, do Voando pelo Céu da Boca, que recomendo a todos, um poema lindo, com uma ilustração idem. Não pedí licença a ela, mas acredito que não se importará, já que estou publicando aquí em homenagem à sua incrível sensibilidade e romantismo. Adoro voar com ela. Acho que você gostará também. Ela está linkada entre os meus preferidos. Vale a pena conhecer.
Foto: Gaspar Pedro (1000 Imagens)
Temporário
Parece que o tempo
esse carcereiro implacável
brinca de dominar
e por fim
libertar
o que a gente com tanta força
sufoca entre os dedos.
Por Dira Vieira

 Zeca07 - 16h59
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DESEJOS E SONHOS
Chegou devagar, olhando demoradamente para a imensidão do mar. Um grupo de crianças brincando com areia e algumas mulheres conversando sobre esteiras estendidas. Mais nada. Sentou-se, tirou as sandálias e ficou curtindo o toque frio da areia úmida em seus pés. Seus olhos perdidos no horizonte não viam a cor do mar, sonhavam com outras paisagens. Seus pensamentos traíam suas feições praticamente imobilizadas. Em uma tarde ensolarada, com os cabelos revoltos pelo vento, suas pernas não conseguiam mais sustentar o corpo cansado de tanto caminhar por uma trilha que subia a montanha. Deixou-se descansar uns momentos sobre uma pedra, ao lado de um riacho cantante que rasgava o verde. Seu cantil, quase vazio, saciou sua sede e o lenço marrom secou o suor que umedecia sua testa. Subitamente um som entre todos despertou sua atenção. Eram vozes alegres, um grupo de jovens que chegava. Vinham alvoroçados, desfazendo o encanto daquela solidão escolhida. Garotas e rapazes vinham chegando pela mesma trilha e, com a simpatia dos jovens sorriram, acenaram e se aproximaram do córrego em algazarra. Um deles, mais calado, ficou à margem das brincadeiras, destacando-se pela seriedade. Seu olhar era vago, não se fixando em nada, não mostrando emoções. Sentou-se em outra pedra e alí ficou, absorto em seus pensamentos. Observado sem perceber, o jovem calado mais parecia uma escultura em um jardim. Sua pele clara indicava que não tomava muito sol. Suas mãos delicadas, dedos finos e longos, descansavam, cruzadas, sobre os joelhos. As pernas, libertas pela bermuda, mostravam uma penugem dourada. Os cabelos, castanhos, caíam sobre a testa alta. Enquanto o observava atentamente, seus sentimentos foram enternecendo seu coração e uma sensação desconhecida começou a tomar forma em seu íntimo. Nunca se ligara a rapazinhos, pelo contrário, sempre preferira os homens feitos, adultos experientes. Nem mesmo na mais tenra idade quisera contato com jovens da sua idade. Seu primeiro namorado era pelo menos oito anos mais velho. Mas aquele garoto chamara e fixara sua atenção, não sabia por que. Emanava dele algo especial, como se fosse uma aura, um odor diferente, um som surdo, um ar de entrega. Começou a desejá-lo. Ainda não sabia como, se queria acariciá-lo como um filho, embalá-lo em seus braços, beijar suas faces tão claras. Talvez quisesse extrair daqueles lábios vermelhos um sorriso, ou daqueles olhos profundos um brilho especial. Mas, à medida que analisava seus próprios sentimentos, começou a perceber um desejo mais ardente que aquecia suas entranhas. Gostaria mesmo de envolvê-lo em um abraço sensual, percorrendo sua pele com mãos curiosas, extrair daqueles lábios vermelhos um gemido de prazer, ou daqueles olhos profundos um brilho de amor. Ansiava pelos jogos de sedução, de conquista. Queria sentir seus corpos se fundindo, suas peles se roçando, seus suores se misturando entre beijos e carícias sensuais. Desejava aqueles lábios vermelhos percorrendo seu corpo, umedecendo e arrepiando sua nuca, extraindo profundos sons de prazer. Desejava aquelas mãos claras de dedos longos, tocando seu corpo como se fosse um instrumento musical, para comporem, juntos, uma sinfonia de amor. Queria a entrega total, os corpos transformando-se em um para, depois de um bailado ansioso, explodirem de emoção e prazer. Enquanto sonhava, não notou que o grupo que estava no riacho voltava, chamando o amigo para seguirem caminho, despedindo-se com alegres risadas. Seguiram caminho e, com eles, se foi seu amado, deixando aquela profunda sensação de solidão, aquela angústia de amor não correspondido, de desejo não consumado. Seu corpo quente foi trespassado por um arrepio, como se um enorme vazio engolisse sua alma. Seus olhos, perdidos na trilha que descia a montanha nada mais enxergavam. Nenhum som de vozes ou de risadas se ouvia mais. Apenas os sons de uma mata fechada, num fim de tarde, em total solidão. Passado o torpor, resolveu seguí-los voltando pela trilha em direção à praia, onde um grupo de crianças brincava com areia e algumas mulheres conversavam sentadas em esteiras.


 Zeca07 - 23h27
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AURORA
Vagueava desesperado, tendo como companhia os uivos do vento. Negras nuvens encobrindo a lua, apenas a escuridão em meu caminho. Meus olhos, enegrecidos por lágrimas doloridas permaneciam fechados, se desmanchando num rio de lágrimas amargas. O coração, num laço apertado queimava meu peito e o frio era minha mortalha. Estava completamente só, sem amigos, sem amor, sem ninguém. Quando a desesperança atingiu seu ponto mais agudo, minhas asas foram parando de bater e me deixei cair ao lado de um rio escuro e choroso. O ruído das águas correndo em busca de um destino desconhecido foi preenchendo minha mente cansada e, finalmente, um pouco de paz abateu-se sobre mim. O triste canto das águas do rio foi tomando conta dos meus sentidos e, pouco a pouco, nos tornamos um. Eu e o rio. Seguindo, chorosos, em busca do desconhecido.
Um raio de luz criou um mágico reflexo no meio do rio. Meus olhos ainda rasos d’água procuraram aquele único brilho em meio à escuridão. Pouco a pouco a água foi tomando forma e o que antes era apenas um canto triste ganhava forma, mostrando tênues relevos, alterados constantemente pelo risco de luz. Era a Lua, numa guerra surda vencendo a barreira de nuvens escuras e enviando um sinal amigo, de conforto. Apeguei-me àquele sinal e meu coração foi-se apaziguando, minhas lágrimas secando. Aos poucos as inamistosas nuvens negras foram abrindo espaço para o brilho da luz, até que esta, triunfante, mostrasse todo seu esplendor. O rio já não era tão tristonho, suas águas pareciam inebriadas pelo luar, mudando o tom lamentoso do seu canto para um som mais ameno, sereno. Uma a uma, as damas de companhia da amiga Lua marcavam presença, pontos luminosos, transformando a paisagem e acalmando o meu coração.
Levantei-me e inspirei. Fundo. Soltei, num som de lamento, todo o tormento que habitava meu corpo, todo o sofrimento que apertava meu coração. E me pus a caminho.
Seguia o curso do rio, a trilha de luz sobre as águas, o canto ameno, o cheiro de mato. Já não mais ventava. Minhas asas foram se alongando, retomando suas cores e se abrindo sobre mim, elevando-me suavemente em busca do meu destinho. A brisa se juntou ao rio fazendo música suave.
O coração doía ainda, mas a alma estava em paz. O corpo solitário se arrepiando levemente com a carícia da brisa da madrugada. E o som das asas batendo se juntou ao do rio e da brisa, harmônicamente, inconsciente.
O rio corria e cantava, acompanhado pela brisa e pelo som abafado das minhas asas. Meus olhos, agora secos prescrutavam o longínquo horizonte, iluminado pela Lua amiga e por suas damas de companhia. Mas, o que seria aquela luz ao longe?
Não era reflexo da Lua, nem tinha a cor das estrelas. Era mais amarelada, mais fixa. Enquanto me aproximava fui percebendo a silhueta de uma casa entre árvores. De uma janela aberta, ladeada por uma trepadeira em flor, que exalava suave perfume, saía aquela luz que me atraía, traindo a companhia da Lua. Com o olhar fixo para dentro daquela janela aberta ví alguém, ao lado de um abajur solitário que iluminava um vaso com copos de leite. Meio sentado, meio deitado naquela poltrona, um homem respirava a duras penas e dois olhos escuros procuravam, no vazio, por um raio de luz. Acerquei-me dele colocando uma mão sobre sua testa, enquanto a outra energizava seu coração. Sua respiração foi se normalizando até que, num doce suspiro, seus olhos encontraram os meus. Seu olhar trazia tanta dor, tanto sofrimento que, esquecido dos meus, sorrí docemente e convidei-o a me acompanhar.
Ele começou a se levantar devagar e enlacei-o em meus braços, num delicado abraço, levando-o comigo. Voamos juntos sob um céu festivo, com o séquito da Lua seguindo-a enquanto, a leste, um clarão alaranjado anunciava a Aurora. Pousei na encosta de uma montanha, de onde se avistava o rio que me guiara e me despedí da amiga Lua, agradecendo sua companhia. Ela beijou levemente a testa do meu companheiro e com um sorriso doce afastou-se de nós. À chegada da Aurora, a paisagem prateada que me acompanhara foi se colorindo e, ao som do rio e da brisa foram se juntando novos e alegres sons matinais. Comecei então a despir lentamente meu novo pupilo e seus olhos foram deixando que se esvaíssem toda a dor, a tristeza e o sofrimento que os tornava escuros. Foram adquirindo os tons da manhã, me olhando com carinho, me trazendo consolo. Já desnudado, apertei o seu corpo num abraço envolvente e fui retirando das suas costas os raios da luz da manhã que foram se transformando em asas coloridas. Como as minhas. E num beijo amoroso selamos nossa amizade e atamos nossas vidas que seguiriam unidas. Até quando? Não sei.
Dedicado ao Pedro Nascimento ( http://toyboy.planetaclix.pt )

 Zeca07 - 01h22
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ESCLARECIMENTOS E DESCULPAS
Dia desses, escreví um texto para colocar no blog, cujo título era Limpando as gavetas – arejando a vida. No mesmo dia, passeando pelos blogs que costumo visitar, ví um texto muito parecido no Arabella Bella e comentei diretamente com ela a coicidência, deixando o meu texto de lado. No dia seguinte, recebí um e-mail de remetente desconhecido para mim, que quase deletei sem abrir. Mas algo me fez abrí-lo, correndo o risco de estar recebendo um vírus. Era o Toy Boy, do Pedro Nascimento, com belos contos, inclusive um, chamado Amor e Solidão, extremamente semelhante a outro que eu havia escrito e que me causou profunda impressão. Hoje, lendo os comentários ao meu conto, Noturno, percebí um arguto comentário do Daniel Santos, que participa do Toy Boy, dizendo que este é claramente “inspirado” no Amor e Solidão.
Confesso abertamente essa “inspiração”, pois após a leitura dos contos do Pedro Nascimento, onde deixei meus comentários parabenizando-o pela qualidade dos seus trabalhos, fiz uma revisão no meu, incluindo aí, as figuras dos anjos da morte. O outro final era um pouco piegas e eu não estava satisfeito com ele. Claro que transformando os personagens em anjos, fiz alterações em todo o texto, o que deve ter deixado o meu muito mais semelhante ao do Pedro. Não estou me defendendo de nada, apenas sendo claro e honesto,confessando que a inspiração detectado pelo Daniel é absolutamente verdadeira. E talvez eu tenha pecado por deixar toda a estrutura do conto muito parecida com o do Pedro. Relí os dois e concordo plenamente com o Daniel.
Públicamente peço desculpas ao Pedro Nascimento, do Toy Boys e, já que o meu conto já foi mesmo publicado, o mínimo que posso fazer é dedicá-lo ao meu inspirador. Assim, quero que você, Pedro, que me tem lido sempre, me desculpe pela “apropriação” da estrutura do seu conto e aceite como gesto de boa vontade da minha parte, que o conto Noturno seja dedicado a você.
Quero esclarecer a todos que frequentam meu canto, que este meu ato não foi intencional, tratando-se da mais pura coincidência. Eu percebí a semelhança, tive a inspiração de alterar o meu final e, talvez por ter gostado demais dos contos do Pedro, não tenha percebido que o meu acabou caminhando ao encontro do dele e tenha se tornado praticamente um plágio do outro. Peço desculpas a todos por isso. E me sinto profundamente envergonhado.


 Zeca07 - 00h26
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